Perspectivas

Tenho lido diversos comentários e notas acerca da nova realização do Coldplay. Alguns deles partem do pressuposto que Prospekt, pseudônimo responsável pelas atualizações no site oficial sobre o quarto álbum, é Chris Martin. Muito mais do que a caligrafia, algumas evidências deixam entrever que o nosso vocalista está longe de assinar os posts. De qualquer maneira, é sempre bom ouvir as palavras de uma pessoa que está tão envolvido na gravação quanto Prospekt e conhecer o que provavelmente nos aguarda:

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  • Sexta-feira, 20 de abril de 2007

            A sala de controle é minúscula. Literalmente menor do que o meu quarto. O estúdio de gravação ganha por pouco; mais ou menos do tamanho do estúdio de ensaio que costumávamos ter antes de um contrato.

            Brian Eno está sentado à frente do computador, perto da parte de trás da sala de controle. Um mestre benevolente, com respeito incondicional de quem está sob sua responsabilidade. Quando ele fala, nós ouvimos. Markus Dravs fica à espreita no estúdio, feito um felino no zoológico. A heavyweight boxer with a paintbrush.

            Duas pessoas bastante diferentes, ambas igualmente extraordinárias. Brian e Markus, em conjunto, trouxeram uma disciplina que nunca existiu em gravações anteriores. Há na atmosfera tensão e urgência.

            Jamais havia visto a banda com tamanha ânsia por ter uma liderança e ser estimulada. Chris acabou de irromper em minha pequena sala, em cima do estúdio. Ele tem trabalhado nas letras: muito mais abstratas e visuais do que antes. Isso tem se refletido na melodia também: menos diretas, mais oblíquas.

            Há um longo caminho a ser percorrido, mas o início é de bons presságios.

Prospekt

  • Sexta-feira, 29 de junho de 2007

             Um aspecto do processo de gravação com o qual eu jamais me acostumarei é a tensão. Essa é uma parte inerente da gravação. Sem tensão, não há foco. Sem foco, o trabalho se torna medíocre e ineficaz. Tensão é reflexo de que as pessoas realmente se importam. Pessoalmente, não lido muito bem com ela. Essa é a razão por eu permanecer no estúdio por períodos curtos. Estou sempre entrando e saindo. Não tenho o perfil para conseguir bons resultados na atmosfera do estúdio.

            Quando seis homens com notável força de vontade forem colocados em uma sala pequena por dez meses, trabalhando entre 10 e 12 horas em algo que com que eles se importam intensamente, é inevitável que surja atrito. O mais incrível é que esse atrito raramente evolui em um incêndio.

            O segredo é comunicação – na segunda tivemos uma reunião de umas cinco horas. Discutimos nossos métodos, horários, objetivos e basicamente tudo que nos veio à mente. Brian, durante o encontro, compôs uma lista de 25 músicas que estivemos desenvolvendo. Os quatro membros, Brian, Markus e eu trocamos idéias sobre cada uma das faixas: o que as separava da conclusão, o que precisava ser adicionado, o que parecia inédito e empolgante, o que soava usado e antigo. A reunião foi uma análise minuciosa e implacável de todo o trabalho até agora. Markus estava particularmente violento (como sempre).

            Uma fração infinitesimal do material consegue aprovação geral. Entretanto, longe de nos sentirmos desanimados, estamos todos muito mais confiantes. É muito melhor olhar o mapa e verificar qual direção você está seguindo e o quanto você já avançou do que simplesmente vagar por aí, sem rumo, esperando pelo melhor.

Prospekt

  • Sexta-feira, 20 de julho de 2007

            Temos viajado com pouca bagagem: um violão, alguns microfones, um laptop e fones de ouvido. Estamos gravando em Barcelona, indo de igreja em igreja e nos instalando onde é possível: em frente ao altar, debaixo do púlpito. Estivemos tocando aos pés de arcanjos. É uma cena peculiar: santos deitam um olhar indiferente sobre quatro irrequietos músicos reunidos em torno de um único microfone, cantando bem alto enquanto o som de guitarras reverbera pelas paredes.

            Eles estão trabalhando no backing vocal. Brian Eno freqüentemente se une ao grupo – cantar é um de seus maiores prazeres. Markus desenvolve as gravações em seu computador, exigindo incontáveis reformulações até que ele fique satisfeito.

            O panorama, sons e sabores da América Latina e da Espanha definitivamente ganharam o álbum. A banda visitou Argentina, Chile, Brasil e México no início do ano. Posteriormente, Chris voltou com a idéia de gravar na Espanha. A música e as letras começaram a refletir uma forte temática hispânica. Nem maracas, nem castanholas, mas sim a vitalidade e o colorido da atmosfera de Buenos Aires e de Barcelona. O efeito é sutil, mas importante.

Prospekt

  • Quarta-feira, 5 de setembro de 2007

             De volta ao mesmo local após um mês de férias. Senti falta da agitação. Alguns meses ainda nos separam da conclusão. Porém, as discussões em torno das músicas que vão para o CD começaram. O plano sempre foi fazer uma gravação curta. Nada além de 42 minutos, 9 canções (mais ou menos), selecionadas a partir das seguintes:

Lost

Cemeteries of London

Violet Hill

Poppy Fields

42

Yes!

Leftrightleftrightleft

-Rainy Day

            Usando uma analogia famigerada, é como escalar um time de futebol. Não é simplesmente talento individual, mas coesão como grupo e sucesso conjunto. Um quadro mais amplo. Um álbum que você pode escutar do começo ao fim. O risco é que grandes canções possam ficar de fora do álbum por não se “encaixarem” nele.

            Tenho de confessar que, como um não-músico confesso, essa forma de lidar com a tracklist me preocupa um pouco. Creio que o álbum deveria ser composto das nove melhores canções. Se isso significar oito faixas de metal agressivo e uma balada, que assim seja. No entanto, essa não é visão da banda e eu tenho de respeitar sua integridade.

            Esperem um CD curto, conciso, sem excessos e com, ao menos, duas músicas top-division a serem lançadas independentemente.

Prospekt

  • 21 de setembro, sexta-feira

Londres

             Essa é o álbum que eu sempre sonhei que eles fariam. É a melodia de uma banda fazendo sua própria força vir à tona; a música de quatro homens com total confiança em si mesmos e em cada um de seus companheiros.

            É o som de um compositor no auge de suas habilidades. Lírica e melodicamente, Chris parece ter vencido as limitações do passado. Há uma nova confiança para romper as fronteiras do conhecido e do cômodo; uma urgência em explorar e descobrir. Sua energia é contagiante – às vezes, intimidante. Uma explosão avassaladora de amor, paixão e fúria; um verdadeiro apetite pela vida, devorando avidamente cada segundo dos dias, em sua maior expressão. Ele sabe que o tempo urge.

            Jonny, da mesma forma, explorou um universo desconhecido de sons, criando um mundo novo para cada música. Sua guitarra se faz presente no álbum inteiro. Will manipulou, combinou e uniu batidas para produzir ritmos que não apenas acompanham as músicas, mas essencialmente as conduzem. Guy – autoridade musical da banda, constantemente a orientando- guiou e influenciou todo o processo. Sempre exigente, não titubeou quando controlar a situação se fez necessário.

            Os quatro juntos têm uma unidade fantástica e esse novo trabalho fará com que eles sejam guardados na memória de todos.

Prospekt

  • Sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Londres

             O prazo final que nós mesmos estabelecemos está ameaçadoramente próximo e novas canções surgiram. Famous Old Painters e Glass of Water. É como se a pressão fosse um catalisador. A pressão para finalizar o álbum fez surgir um novo influxo criativo. No entanto, o limite continua existindo…

            Com duas novas músicas para serem exploradas e gravadas, há bastante trabalho extra. Porém, isso ainda pode ser feito. O quanto eles estão envolvidos no projeto, no estúdio, é algo palpável. Boa parte dos créditos vai para o produtor Markus Dravs por encorajar que se trabalhasse à exaustão, mas jamais além disso.

            Esse álbum soa como uma gravação muito densa. Há diversas melodias e cores juntas num intervalo relativamente curto (42 minutos). Como seria de se esperar com a presença de Brian Eno, há experimentalismo e exploração. Ainda assim, a música tem integridade. É real e honesta. Não há simulacros ou pretensão.

            As próximas semanas serão intensas. Não há dúvidas quanto a isso. Eu já desenvolvi Alopecia na minha mão. Guy está com insônia e Chris fica de cima para baixo com um ioiô. Entretanto, quando a hora chegar e o trabalho estiver pronto, esse será o álbum que sempre sonhei que faríamos.

Prospekt

  • Quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Mixagem, Nova Iorque

             Os altos e baixos vêm à tona com toda a intensidade a essa altura do campeonato. Num segundo, estamos todos empolgados com a edição de Prospekt’s March; no outro, somos devastados pelas dúvidas acerca da bateria em Lost! Num instante, estamos absurdamente felizes por uma nova idéia sobre o projeto gráfico; no outro, ficamos melancólicos devido ao progresso lento do planejamento da performance dos shows. Hoje tivemos uma reunião sobre o coldplay.com e sobre como fazer dele o melhor site que existe.

            Dessa forma, como vocês podem notar, há bastante coisa acontecendo… Estamos tentando reunir todas as nossas idéias e deixar essas músicas (e toda a comoção que vier junto) prontas para apresentá-las ao grande e vasto mundo. O engraçado (e isso sempre acontece) é que os momentos de inspiração continuam chegando a toda hora. O clima não é de consolidação nem de sossego. Conseguimos uma banda de instrumentos de sopro (tubas, trompetes, trompa francesa etc), vinda do Brooklyn para recriar o terceiro verso de Famous Old Painters. Os créditos e agradecimentos vão para o produtor Markus por ter encontrado um grupo de músicos que tocam um estilo ímpar de música […]

            E Chris escreve sem parar… Ele me mostrou cinco composições novas nos dois últimos dias. E realmente não sei quando ele dorme.

Prospekt

  • Quarta-feira, 30 de janeiro

Devon, Reino Unido.

            De volta ao lar por alguns dias. Um pouco de descanso antes do impulso final.

            Mais quatro ou cinco semanas e o trabalho deve estar concluído: mais algumas mixagens para a total regravação de uma das canções. Em tempos passados, eu teria separado um mês para regravar uma faixa. Contudo, na semana anterior ao Natal, gravamos duas músicas em quatro dias: Lovers in Japan e Strawberry Swing. No quinto dia (sexta-feira), Chris adicionou novos versos (e alterou a melodia) de duas outras faixas. Foi, sem dúvida alguma, a semana mais empolgante e produtiva que já tivemos no estúdio. Meu Natal foi de fato excitante.

            Desde então, a edição tem sido lenta e o trabalho, minucioso, mas é assim que esse processo deve ser. Enfim… Dê-nos mais ou menos um mês e talvez teremos um álbum digno de sua espera.

Prospekt

ps: O nome do álbum não é Prospekt!  

 

 

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  1. Raia
    22 Fevereiro, 2008 às 1:45 am

    Gostei de ler isso. Além de relembrar de coisas que já havia lido, ler coisas novas me deixaram mais ansiosa pra ouvir esse CD.

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