La Vida Loca!

Eis que um mês depois a tradução da Q Magazine é concluída… 

Chris Martin tem um sonho, meus caros. “Sempre sonho com outros músicos”, ele sorri, piscando seus vastos olhos azul-céu. “E com o U2 ou o Radiohead é sempre [entusiasmadamente] ‘Ei, tudo bem?’ Mas eles nunca prestam lá muita atenção. É uma sensação permanente de estar na escola, com os caras mais legais não dando a mínima para você. ‘Olha só essa nota que sei tocar!’ ‘Não enche’. Noite passada eu sonhei com o Radiohead e, na anterior, com o Westlife, a combinação perfeita do que queremos fazer musicalmente”.

Chris Martin é, sem dúvida, o vocalista mais auto-depreciativo na história do rock. Se a sua atitude mais imediata ao receber o seu primeiro Grammy foi desenhar um bigode na estatueta assim que chegou em casa, você não se surpreeenderia. É 12 de março de 2008 e talvez o nervosismo e a neurose do Coldplay se tornam inteligíveis se considerarmos que a banda deu início à tarefa de seleção de quais entre as 25 canções completas (além de 16 outras faixas não concluídas ou em vários estágios de finalização) comporão o repertório do álbum ansiosamente aguardado em todo o globo. Estamos em Hampstead, norte londrino, em seu próprio estúdio particular, The Bakery e o profundamente indeciso Martin chegou, vestindo um engenhoso reforço para a indecisão, uma austera gravata negra e uma camisa azul. “Pensei que se usasse uma gravata sentiria como se tivesse alguma autoridade”, ele declara com sua voz branda e graciosa. “Se eu dissesse hoje ‘Essa aqui é definitivamente uma B-side’, as pessoas talvez escutem'”.

Três anos desde o lançamento do X&Y -o álbum que vendeu 10 milhões de cópias e alicerçou a emergência do Coldplay como um grupo de garotos cativantes à maior banda da década – e descobrimos logo de cara que a megalomania despótica do rock falhou ao reivindicar a alma de Chris Martin, o qual mantém distância de tal posição o tanto quanto é possível para também não se tornar um São Francisco de Assis. […] Com trinta e um anos de idade, ele é inacreditavelmente amigável, pronfundamente gentil, além de irradiar uma energia que conhecemos como carisma.

The Bakery é o sonho de qualquer músico; foi adquirida no início de 2006 e é o local em que “tudo” (música, composições artísticas, discussões, piadas) acontece. No andar de baixo, um estúdio totalmente equipado; no andar de cima, uma ampla sala com móveis, equipamentos e fotos em preto e branco dos Beatles e do Clash nas paredes. Os outros três também estão aqui, rindo do sarcasmo de Chris e intervindo ocasionalmente, em especial o sardônico Will Champion. Ele pondera sobre o aguardado álbum: “Quando você fica um bom tempo sem fazer nada, você fica pensando ‘Tem realmente alguém se c*****o?'”. Há também Guy Berryman, o escandalosamente charmoso baixista escocês: “Corri quase 30km de manhã”, o que não é uma piada, já que ele está treinando para a maratona londrina. Da mesma forma, está presente Jonny Buckland, o bem-aventurado guitarrista, com um sorriso sereno.

X&Y deu fim à banda que Champion oficialmente denomina “Oldplay” [sendo, old=velho/antigo/ultrapassado, em inglês]. É um álbum que Martin agora enxerga como “longo demais” e que Buckland declara ter sido concluído “sob pressão [da parte da gravadora EMI], mas, naquele momento, eles [a gravadora] estavam sob pressão, ainda o estão”. Dessa vez, acrescenta o guitarrista, a EMI não pressionou de forma alguma: “Eles têm sido incríveis e nos sentimos como uma banda nova e não como uma corporativa qualquer”.

No estúdio, no andar de baixo (dividido em duas partes, como é o comum – uma sala de controle com muitos aparelhoes eletrônicos e a Live Room, marcada pelo caos e pelos instrumentos espalhados por toda a parte), títulos de canções estão riscados a giz em uma das paredes: Viva La Vida; Death Will Never Conquer; Death And All His Friends; Postcards From Far Away; Thought You Might Be A Ghost. Uma escrivaninha de madeira traz as inscrições: “Brian is great” [algo como Brian é genial, o máximo]. Após Parachutes (2000), A Rush Of Blood To The Head (2002) e X&Y, o Coldplay estava pronto, diz Martin, poeticamente, “para tentar novas colorações”. Contando com Brian Eno na produção, um conhecido de Martin desde 2001, a banda percorreu as lendárias e deslumbrantes técnicas de Eno. Em primeiro lugar, tocaram todos juntos, porém sem gravar um única nota. Também fizeram uso das “Estratégias Oblíquas” de Eno, um “oráculo” contendo instruções de perspectiva e foco (“Dêem espaço para a atenuação de barreiras”, “Enfatizem as falhas”, “Precisamos de subterfúgios?”). Além disso, permutaram os intrumentos de cada um, abandonando o hábito de começar um música a partir de uma idéia inicial de Martin (tradição que havia, até então, permeado toda a sua carreira e o que o vocalista caracterizou como “libertação”). Enfim, havia as reuniões de sexta-feira à noite, as quais Will Champion chamava “Hora das estórias do velho Brian”. ‘Conte-nos uma estória sobre o Talking Heads ou o Bowie!'”.

A Q se apodera de nove faixas que podem fazer parte do repertório, começando com 42, uma hipnotizante contemplação sobre a morte, enquanto a favorita da revista, Chinese Sleep Chant, contém uma tsunami de guitarras e um campo de força de vocais de que não se pode decifrar uma única palavra. Perto dos aparelhos de mixagem, Martin está encarapitado em uma cadeira giratória de couro negro, brincando com sua gravata, enquanto seu bom humor começa a deteriorar rápida e inevitavelmente. Conversamos sobre o aparente realce da morte no álbum.

“Bom, muitas pessoas próximas morreram recentemente”, ele diz, franco. “Sabe, família e amigos, não quero entrar em detalhes. Não seria desrespeitoso dizer quem faleceu? Mas eu sempre enxergo isso como algo positivo, como ‘Ok, o que podemos fazer antes desse ápice’? Muitas pessoas nasceram, também [todos os membros do Coldplay são pais agora]. Há tanto o que fazer. Não temos tempo a perder. Carpe Diem”.

Abordamos, inevitavelmente, as expectativas do público, sobre a hipótese de que esse pode ser Kid A do Coldplay, suposição essa que faz Martin torcer o nariz: “Não dá para superar o Kid A!”[…]. Consideramos a posição do Coldplay como a maior banda do mundo e  ele fica ainda mais incomodado: Eu só tenho me empolgado escrevendo. Depois do último álbum eu estava me sentindo ‘Meu Deus, não sei como conseguimos escapar dessa história de ser uma banda monumental. E nós ainda não fizemos nada que eu ache tão bom assim. Então é quase como ‘Temos uma tarefa e agora temos de provar por que a temos’. A maior conversa fiada de todos os tempos, isso sim! [melancólico]. Eu não pensava nessas coisas havia dois anos”.

Martin está irrequieto, suas mãos mergulhando em seu cabelo. A Q, ao que parece, iadvertidamente trouxe para o estúdio as opiniões e expectativas de um mundo externo cuja existência o Coldplay havia esquecido.

“Em função deste lugar”, ele diz, referindo-se a The Bakery, “nos sentimos como se não tivéssemos sucesso algum. Ou como se ninguém nos odiasse. Não temos a noção de nada, mas, tá bom, como vamos fazer isso soar melhor? Eu moro a um minuto daqui. Então… A única ocasião que me lembra da banda grande em que estamos é o fato de ser casado com uma pessoa famosa. Todo o resto é exatamente igual ao que era onze anos atrás, quando nós simplesmente nos reuníamos para tocar”.

Você acredita que a sua fama é creditada ao seu casamento? “Bem, é um tipo diferente de fama, a qual fazemos de tudo para evitar”. Então, na sua mente, você pensa que ainda é o rapaz do clipe de Yellow, numa banda indie? “Talvez. Estamos trazendo à tona alguns fatos ríspidos, porém verdadeiros. Vocês estão ajudando bastante”.

Igualmente, discutimos sobre como lidar com as críticas, sobre como ele se sentiu quando o New York Times declarou, em 2005, que o Coldplay era “a banda mais insuportável de toda a década” (letras de auto-depreciação, delírios sobre magnificência musical, opinou o jornalista; “Muito informativo”, diz Martin. “Pensei ‘Vamos melhorar, então'”) e, finalmente, se é o lado religioso da música que é mais fácil de criticar, uma aparente busca espiritual d’A Luz. “Não faço idéia”, ele responde, com a voz apagada. “Tenho certeza de que são todos os aspectos. O que podemos fazer? É o jeito como as coisas saem. Não creio que jamais faremos músicas pesadas tão bem quanto o Rammstein. E não quero escrever musiquinhas obscuras. Quero dizer… Danem-se eles. O que posso fazer? O que querem que eu faça?”

Dessa forma, a Q se encontra em uma posição desconcertante, tentando reassegurar Chris Martin, vencedor de quatro Grammys, cujos discos venderam mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo, ícone musical internacionalmente aclamado, marido de uma atriz oscarizada, que há muitíssimo mais pessoas que amam o Coldplay do que há jornalistas maldosos do New York Times. “Tudo isso é muito positivo… [resguarda a cabeça entre as mãos] Eu sou só um ser humano!”.

A Q conta sobre amigos escoceses que amam o que o Coldplay faz, em especial ao vivo. “É sempre divertido tocar na Escócia”, ele afirma, animando-se. “Qualquer lugar que as pessoas gostam de cantar é bom para fazer show”. A Escócia preza a experiência comunal. “É quando me sinto mais vivo”, ele diz, repentinamente voltando ao bom humor inicial. “Respondendo à sua perrgunta, acredito que o aspecto que mais incomoda as pessoas é aquilo que me faz sentir mais vivo. Cantar junto e sentir que você faz parte. Assim, eu não posso realmente me desculpar por isso. Fui ver o John Williams, o cara que compôs toda as músicas do Star Wars [trecho cortado], e isso aconteceu em um salão com milhares de pessoas de smoking. E tão logo a música começou a tocar, o público simplesmente enlouqueceu. Foi mais intenso do que qualquer show de rock. Todos foram transportados para outra dimensão. Alguns gostam do desafio de lidar com um platéia por vezes distante enquanto outros querem estar próximos do público o tempo todo. Definitivamente, somos do segundo grupo. Queremos compor as músicas que definem a década, as grandes músicas desse época, as músicas que fazem as pessoas se reunirem e se sentirem bem. Isto é o que estamos tentando fazer. […] e isso vem juntamente a contraposições, mas temos que lidar com isso. E conversar com vocês me fez perceber isso. E isso é bom! Hora de vestir a velha armadura!”.

Em uma antiga área residencial pavimentada com paralelepípedos, Brian Eno abre a porta de seu estúdio, enquanto acena na direção da janela à frente. “Só estou cumprimentando meu amigo”, ele sorri. “Jason Donovan”. Espreitamos e de fato vemos Donovam ao telefone, do outro lado. “Não fiquem encanrando!”, ele nos repreende, nos fazendo entrar.

Em um amplo espaço de trabalho, estão dois computadores cuja tela se assemelha a TVs de plasma. Vestindo uma camisa azul e branca de bolinhas, o ícone mais conhecido da cultura pop é, inesperadamente, um homem particularmente cordial e alegre. Nos anos em que a amizade com Chris Martin floresceu, ele disse não estar mais interessado em fazer o trabalho de produção em tempo integral. “Eu deixei implícito que não queria e, então, eu fui a um almoço muito agradável com Chris e Gwyneth na casa deles. Chris disse [começa a gaguejar] ‘Olha, uhm, sabe, eu, talvez, sabe… Eu acho que realmente precisamos de ajuda nesse disco, de alguém que dê idéias’ (e ele ficou nessa por horas e horas) ‘Será que você poderia sugerir alguém?’. E, finalmente, a Gwyneth interrompe: ‘Por que você não simplesmente diz a ele que vocês o querem na produção!?’. Foi muito carinhoso. Ela é muito legal. E ele também. São todos muitos legais, na verdade, cativantes e  inteligentes e, se for para eu fazer alguma parceria, que seja com alguém cuja companhia eu aprecie. E eu gosto de algumas de suas músicas. Muito”.

O som de X&Y, pensou Eno, pecou por excesso de efeitos computadorizados, “apesar de ter gostado de muito do material do disco”. Ele diz ainda: “Eles erraram um pouquinho na mão, o que ocorre com certa freqüência tendo em vista as ferramentas que facilitam o ‘copiar-colar’ e toda a tecnologia. Isso deixa a perfeição mais tangível, porém às custas de vida, na minha opinião; deixa tudo plano, uniforme. Música morta”. Sua única intenção com o Coldplay foi criar “música com vida, a única coisa que me interessa agora”. Para tal final, sendo Eno um não-músico, o que mais fez foi encorajar, sugerindo “experimentalismo sem rédeas; idéias idiotas; coisas singelas. [Algumas dessas idéias] funcionaram, outras não; instrumentos orientais (Martin agora pode tocar um dulcimer, instrumento semelhante a uma cítara) e desencorajou declaradamente qualquer espírito de perfeccionismo agonizante”.

Pergunte a Eno se esse álbum conduzirá a banda ao panteão d’Os Grandes e ele responde com discrição e modéstia, muito semelhantemente ao próprio Coldplay. “A história é tão quixotesca”, ele reflete, “então, eu não penso dessa maneira. Pessoalmente, eu acredito que algumas músicas do Coldplay vão perdurar por um longo tempo. No entanto, é a vida que permanece. Quando você sente que alguém vive no limite de suas oportunidades. E acho que é isso que você percebe com essa banda, de quando em quando. Acho que há muito disso no disco”.

The Bakery, 15 de abril, 2h. “Tenho que te falar uma coisa”, anuncia Chris Martin, “mas venha até aqui porque é meio sentimental”. Vamos até a escada. “Você influenciou diretamente o álbum”. “Eu influenciei?”.

“Com a ordem, a seqüência. Quando conversei com você, era óbvio que não tínhamos feito do jeito certo. O começo estava muito pesado e muito carregado com ‘morte’ e essa não é a mensagem que queremos passar. É como editar um filme. Foi muito útil. Obrigado”. Não há de que. Só não se esqueça dos meus royalties. Chris ri, enquanto a Q está realmente falando sério.

Hoje, Chris está parecido com um estudante de uma escola de arte, vestindo camiseta e calça pretas com respingos de tinta roxa, os cabelos para cima. Sentando em uma mesa circular, ele está pintando a estrutura de dois violões […]. Em torno destes, estão espalhados potes de tinta e dois livros de arte sobre Frida Kahlo, artista mexicana do início do século XX. Hoje, ele é um feiticeiro das palavras, decidido a distorcer os limites entre realidade e fantasia e a escapar pela tangente com arte e nonsense. […] “Estou fissurado pelo Girls Aloud hoje”, ele anuncia, “Quero fazer um cover de Call The Shots. É a combinação de ser extremamente atrante com canções muito boas, é mais do que qualquer homem pode agüentar. Deve ser o estilo de vida mais moderno”.

Ele conta mentiras gritantes (“depois usei cocaína com uma prostituta e fiz sexo com Neil Tennant”), enquanto considera sobre uma vida sem música (“Ainda sobra sexo, então você ainda fica com uma das melhores coisas. Não exclua isso, por favor!) e tenta justificar seus últimos empenhos artísticos: “É a idéia de você mesmo fazendo tudo”, ele defende, empunhando seu pincel respingando tinta roxa. “Esse é todo o conceito por trás de The Bakery, que tudo que fazemos vem de nós mesmo. Percebemos que estávamos ao centro dessa imensa corporação. […] É o que estamos tentando fazer. Musicalmente. Fazer os bolinhos da Sra. Battersby”.

Ao invés de explicar as razões do inesperado título do álbum, Viva La Vida Or Death And All His Friends, ele prefere conversar, na verdade, sobre o fato de que a primeira parte fora inspirada em um quadro de Frida Kahlo, descoberto pela banda quando estava no México, no início de 2007. Martin é fã do “incrível otimismo da pintora; ela teve uma vida muito dura, e usou uma série de aparelhos ortopédicos e foi muito influente, politicamente corajosa e muito sensual também. E outra metade [do título]… Eu não quero explicá-la. É só um título. Poderia se chamar O Selecionado Congelado ou Heróis da Brigada do Sorvete. Que cores eu uso agora?”

Viva […] quase contou com a participação de Kylie Minogue, a qual gravou o vocal para uma música. “A Kylie é maravilhosa”, ele afirma, radiante. “Ela é mais ou menos todas as integrantes do Girls Aloud em uma só mulher. [Mas] nós relegamos a música […]. Agora é como um desses modelos não acabados”. Quando a Kylie estava gravando o vocal, todos os membros do Coldplay estavam”, ele acrescenta, “assim [finge um desmaio descomunal].

É o Will quem finalmente explica o conceito por trás da visão que combina arte e rock, uma espécie de Monte Python Se Junta À Revolução Passando Pelo México, Possivelmente Usando uma Catapulta. “O visual do álbum”, diz Champion, “é a idéia de uma revolução um tanto parca, não muito organizada, porém com intensidade e paixão e cor; é a idéia do povo oprimido irrompendo em um palácio e tentando derrubar do poder qualquer que seja o líder. Isso é possivelmente uma analogia da maneira que lidamos com a gravação do disco, realmente reconstruindo tudo. Tudo feito à mão, por nós mesmos”. Nenhuma relação com os bolinhos da Sra. Battersby, então? “Não posso fazer nada em relação aos bolinhos”.

De volta à mesa de madeira, Martin abandona a guitarra roxa e pondera sobre a sua fama sobrenatural. Ele odeia os tablóides, se refere às pessoas que trabalham para eles como “fascistas” e há tempos tem seguido uma política de tolerância zero a qualquer tentativa de falar sobre Gwyneth Paltrow, sua esposa, a qual jamais é mencionada pelo nome. Recentemente, Paltrow afirmou que seu marido “tem um ataque” se ela falar sobre ele. O casal mora em Londres e em Nova Iorque e é relacionado com os estratosfericamente famosos; Paltrow é amiga de longa data de Madonna e Guy Ritchie, ao passo que Martin estreitou laços com Kanye West e Jay-Z, em 2006, com os quais Martin gravou músicas, emprestando sua voz para, respectivamente, Homecoming e Beach Chair. Em setembro de 2006, Martin fez o backing vocal para Jay-Z no primeiríssimo show de hip-hop da Royal Albert Hall, em Londres. “Demais”, ele diz sobre o evento, “Estava com Nas e Jay-Z. Nada mal para um burguesinho inglês”. Ele admira o espírito inabalável do hip-hop. “A maioria dessas pessoas não é inglesa, então não compartilha dessa insegurança inerente”, ele sorri, “Nem dessa mania de… ficar se desculpando. Curtir a vida com pessoas que não se importam com nada, é isso que eu amo. Essa confiança é realmente inspiradora. Sinto como se eu fosse atraído pelo talento”.

Há um número espetacular de pessoas com a mão na braguilha no vídeo de Homecoming. “Não eu, espero! Adoraria fazer isso, mas não domino a técnica”. Já tentou alguma vez, só para ver como é? “Já tentei toda a sorte de coisas no quarto”. Jay-Z levou um tiro aos nove anos, o que você estava fazendo nessa época? “Atirando”, ele retruca, majestosamente. “Cresci junto a pastores e pecuaristas, sabia? Você compartilha alguma característica com o Jay-Z? “Me sinto engraçado falando sobre ele. Parece tão idiota”.

Mencione o recente casamento de Jay-Z e Beyoncé em que ele esteve presente (o casal supostamente casou-se secretamente em Nova Iorque) e, tal qual o rapper, ele fingi não ter consciência alguma sobre o assunto. “Que casamento?”, ele pergunta, dissimuladamente, “Não faço idéia do que você esteja falando”. Você é amigo do maior nome do hip-hop, é empolgante. “Bom, alguém tinha de continuar a tradição de The Girl is mine do Paul McCartney e do Michael Jackson. Tem uma faceta em minha que fica ‘Você não pode fazer isso, ser amigo dessa pessoa, vista isso…’ E se você seguir todas essas regras, você não vai fazer mais nada […]”.

[…]

“A última coisa que quero fazer é falar sobre eles“, declara Martin sobre os paparazzi, um pouco ressentido. “Mas não estamos vivendo na Alemanha nazista, então não vou reclamar. O que vou dizer é que as pessoas deveriam pedir educadamente antes de tirar a foto d… do penteado de alguém”.

[…]

Você com certeza gostaria de passear por aí com sua esposa, às vezes, não? E com as crianças? E ser mais ou menos normal? “Bom, eu como cereal. E tenho um cortador de grama. Isso é bem normal, apesar de poucas pessoas comerem cereal junto ao cortador de grama. Quem tem alguma coisa para reclamar? Sou uma estrela do rock. Não tenho do que reclamar. Posso lidar com qualquer coisa… menos queda de cabelo”.

Nessa noite, antes de ir embora, ele tira do bolso uma caixinha prata do tamanho de um cartão de crédito (é a carteira dele: “Minha esposa me deu isso”), revira seus cartões, parando em uma fotografia de duas crianças loiras andando em estradinha, o sol refletindo diretamente em seu cabelo dourado. Uma animação da Disney, dirigida por Steven Spielberg não teria produzido efeito semelhante. “São meus filhos”. Bom ver que essas crianças realmente existem. “Na verdade, são crianças bem normais”, ele sorri, fechando a carteira.

The Bakery, 16 de abril, 2h30. Hoje Martin incorporou a grande autoridade do rock’n’roll indo e vindo para o estúdio e para o andar de cima, tirando e colocando roupas que parecem o estilo militar de Sandinista!, do The Clash. O Coldplay está gravando alguns ensaios “para a Internet” e os outros membros da banda redecoraram a Live Room. A parede bege dá lugar aos picos nevados do Alpino [refletidos em] profundas águas azuis; em outras paredes, estão florestas e, perto da janela que separa as duas salas, emerge o Planeta Terra, com o esplendor de caleidoscópio, em meio a um estrelado universo pintado à mão. [Outras partes] ostentam “VIVA” e “THE KING IS DEAD” em preto e vermelho, além de uma gravura de Woody Allen. “Nossas melodias vêm daqui”, afirma um Martin jovial, apontando para o universo, “E as letras daqui” [indicando Woody Allen]; perto dos aparelhos de mixagem, fotografias de Jay-Z e Mozart. Em meio a uma vívida batida africana que a Q jamais ouvira, intitulada Strawberry Swing, Martin exclama, com empolgado “performance brilhante!” e, entusiasmado por continuar, “próxima!”. Hoje, o álbum finalmente foi concluído. A ordem da setlist sofreu alterações drásticas, três canções diferentes (Strawberry Swing, Reign of Love e a fenomenal Life in Technicolor, instrumental que abre o disco) e toques resplandecentes de vida. Chinese Sleep Chant, por seu turno, tornou-se uma faixa secreta, escondida no meio do álbum. “Estamos tentando preencher cada centímetro possível de um espaço pequeno”, diz Will, com um breve brilho no olhar […].

A grande dicotomia de Chris Martin -anjo da esperança de um lado e espírito de maledicência do outro- é onde, dizem os outros membros, se encontra o cerne do Coldplay. “A energia do Chris é o que move a coisa toda”, conclui Champion. “Ele é uma mescla inacreditável de pânico total, preocupação e auto-questionamento com confiança, absoluta histeria e animação. E você não pode realmente adivinhar qual dessas facetas você vai encontrar. Nele está um microcosmo da banda; incrível auto-confiança encerrada em portas fechadas. Mas também nos surpreendemos quando as pessoas concordam conosco. Não esperamos ser louvados”. Pergunte a Martin a origem de seu “dom” para a auto-depreciação e você terá teorias múltiplas: seu pai (suas personalidades são semelhantes), adolescência sem sexo (“Acho que não ter sucesso com as mulheres por 21 anos te afeta”), mas, principalmente, seu país. “Acho que é uma característica britânica”, ele decide, “Tenho a mesma posição em relação à minha banda que o Bono tem sobre a dele, mas não posso simplesmente dizer isso. Bom, obviamente, acabei de dizer. É uma sensação de que você sempre pode fazer melhor. Nunca alcanço a posição em que realmente deveríamos estar. É uma corrida permanente. Defasagem? Isso! Sempre estamos três degraus abaixo do que de fato deveríamos. É a história da minha vida. Desaa forma, se eu estiver perto do Elton John em alguma festa, eu não vou me sentir muito confortável porque não compus Rocket Man ainda”.

Brian Eno, naturalmente, é dono da teoria mais sublime sobre por que Chris Martin -quem ele caracteriza como “uma das pessoas mais engraçadas; sua mente e capacidade de associação são bastante rápidas- não consegue levar-se a sério. “Penso que as pessoas convivem com esse medo”, ele assevera, “Porque você vê o que acontece com as outras pessoas. Isso diminui as suas possibilidades. Faz pouco tempo, eu estava lendo Richard Hamming [matemático que trabalhou no projeto de armamentos nucleares WW2 do Projeto Manhattan]  e ele disse que um atributo consistente da ciência é que, quando uma pessoa recebe um prêmio significativo, como o Nobel, elas param de produzir trabalhos de alto nível. E a razão é que, agora, elas se levam muito a sério. Elas não dão mais atenção a problemas pequenos; elas se dedicam a problemas grandiosos e importantes. No entanto, os resultados mais interessantes são obtidos com mais freqüência a partir de coisas sem importância. Muitas das melhores músicas vêm não de pessoas que pensam [assumindo uma expressão séria] ‘Agora eu vou escrever uma música sobre um holocausto nuclear’, mas de alguém cantarolando [animadamente] ‘Ding ding diiiii… olha, isso parece bom’. Se você se levar a sério demais, você não faz mais essas coisas novamente; você se sente muito acima delas. Creio que muitas pessoas intuitivamente captam essa idéia (mesmo que não a articulem), de que, se você perder contato com essas coisas, você perdeu essa noção”. Não acredito que jamais tenha me deparado com nenhum músico que tenha o mesmo grau de humildade genuina que Chris Martin. “Não, nem acho que eu tenha”.

Sexta-feira, 18 de abril, o dia em que a EMI lança Viva La Vida… nos computadores de um bom número de críticos ao redor do mundo e Chris Martin se esgueira entre as portas de vidro de uma cinema londrino, mais desnorteado do que estava no primeiro dia. Hoje, ele está disfarçado, um capuz negro sobre seus cabelos, seus olhos esbugalhados como os de um ET. “Ocorreu uma birga na banda”, ele sussurra, desaparado. Alguma coisa importante? “Não, é idiota!”, ele exclama, desoladamente. Estamos todos saindo desse pequeno casulo. O álbum não está mais nas nossas mãos.

Viemos assistir ao documentário da uma turnê dos Rolling Stones, dirigido por Martin Scorsese, Shine a Light, oir sugestão dele. Sentados no fundo, o logotipo do cinema aparece subitamente na extensa tela, possivelmente uma mensagem particular aos nervosos membros do Coldplay: “PENSE GRANDE”. Martin mantém o capuz abaixado durante todo o filme e, quando os Rolling Stones finalizam cada performance, ele é o único indivíduo a bater palmas junto à platéia dos shows na película.

Posteriormente, no café do cinema, ele está consideravelmente animado. “Estou inspirado”, ele sorri, “Quero começar a turnê agora mesmo. Estou cansado de ficar preso entre quatro paredes. O que mais gosto nos Stones é sua confiança e o sorriso irônico. E as suas roupas. E eles parecem tão próximos. Se você está junto a alguém, nada é problema. É por isso que vivo com medo de me mandarem fazer carreira solo, de que um dos membros deixe a banda. A não ser que você tenha o seu esquadrão, você está f*****. Vou lá na segunda para fazer as pazes”.

Pegamos um táxi até o norte de Londres para verificarmos por que o Coldplay está tão interessado nas dimensões sonoras celestiais que a Q chama A Música De Deus. “Eu não iria tão longe!”, ele nega veementemente. Mas há uma grande influência das igrejas, porque todos nós crescemos cantando em corais todas as manhãs. Claro. Quando você pensa nisso, o tipo de música que mais escutávamos aos 17 anos eram os hinos que cantávamos todos os dias na escola. Não é o que acontecia com a maoiria das pessoas? Nos corais?”. Não de onde eu venho. “Bom, em muitos lugares, sim! Aqui estão as notícias do dia. Aqui, quem foi expulso. E, aqui, o hino do dia. O meu favorito é My Song Is Love Unknown”. Como é ele? “Não quero fazer isso. Fiquei sem graça! [o título aparece nos versos de A Message, do X&Y]. E acho que isso vem naturalmente porque isso foi enraizado naturalmente”.

Easy to embrace

Na música Viva La Vida, você canta “I know Saint Peter won’t all my name”. Você não vai para o Céu? “É sobre… Você não está na lista”, ele graceja, “Fui um mau menino. A idéia de, quando terminada a sua vida, você ser analisado. E isso é um conceito presente na maioria das religiões. Essa é razão por que as pessoas explodem construções. Porque vão conseguir muitas virgens. Eu sempre sinto vontade de dizer ‘Simplesmente entre uma banda [ri descontroladamente]. Essa é possivelmente a coisa mais assustadora para se dizer a alguém. Maledicência eterna. Sei dessas coisas porque as estudei [ele fez Estudos do Mundo Antigo na faculdade]. Estou por dentro disso tudo. Conheço isso. Ainda é meio assustador para mim. E isso é sério. Por isso que é importante para você ser uma “boa” pessoa? Você sempre foi visto como sendo muito puro. “Bom, ninguém é inteiramente puro. Ninguém. Infelizmente. Mas isso é meio nostálgico. E isso é a grande válvula de escape da música, sonhar com um ideal, por mais piegas que isso soe. Muitas coisas são terrivelmente ruins. Dirigir por essa rua sem música [aponta para a rua]… É um dia cinzento, as pessoas estão um pouco melancólicas. Porém, se você dirigir com a música que você ama muito alta, tudo ia parecer uma grande festa.

É estranho que tenhamos assistido a um filme intitulado Shine a Light, visto que o conceito de luz é tão abordado pelo Coldplay -nas músicas, clipes e show. “Especialmente nesse disco. Ele começa obscuro, mas termina do modo contrário. Mais ou menos como o Michael Jackson”.

Martin tem um notável antepassado, seu tatataravô William Willett, o homem que criou o horário de verão […]. [Ele] foi tão importante que Winston Churchill fez um discurso sobre ele e a Q imprimiu a última parte para mostrar a Martin. “Sério?”, ele indaga, nervoso, “Isso vai me deixar decepcionado?”.

Winston Churchill: “Enquanto acertamos nossos relógios, façamos um brinde silencioso à memória de William Willett… Ele não viveu para ver seus feitos altruístas serem coroados pelo sucesso […]. No entanto, ele  possui o monumento que ele desejaria ter tido nos milhares campos repletos de entusiásticos jovens todas as noites do verão, além de um epitáfio que qualquer homem gostaria de ter: Ele deu mais luz aos seus compatriotas”.

“Isso é adorável!”. E eu acho que a sua banda pode fazer isso também. “Bom, como um homem sentimental, obrigado. Pensei que seria uma crítica cerrada. Não quero mais continuar falando. Estou imensamente feliz. Enfim, um comentário positivo. Isso é tudo que me importa, tentar fazer a vida de alguém em algum congestionamento ou tendo um noite insône e chuvosa na França um pouco mais fácil. Porque é esse o efeito da música em mim. Sabe […], lembra que você disse para mim ‘Você acredita mesmo que está numa banda indie diminuta’? E a verdade é acredito. Não tenho sido uma estrela por um bom tempo e estou me preparando para isso. É como vestir a sua fantasia de Super Homem. Quando paro de me preocupar com tudo, enxergo isso exatamente como é, uma oportunidade de fazer algo realmente bom. Depois do último álbum, nos sentimos tão grandiosos e, como as coisas estavam fugindo ao nosso controle, pensamos ‘Precisamos ir direto para um espaço pequeno’ e, então, veio The Bakery. Agora, sinto que queremos ser grandes novamente. Estamos prontos para voltar”.

O táxi chega em uma rua silenciosa com casas elegantes, onde ele vive com suas esposa e filhos e onde centelhas cintilam de uma lareira, sobre a qual ao menos um Grammy com um bigode rabiscado e um Oscar levemente úmido descansam, lado a lado.

Você acha que a vida para Chris Martin, atualmente, é real ou surreal? “Tudo parece real para mim”, ele vislumbra. “Porque é real”.

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  1. Filipe
    25 Junho, 2008 às 9:10 pm

    ufffaaa

    Se foi cansativo pra ler tudo de uma vez…quero nem imaginar o quão cansativo foi traduzir tudo isso!

    VALEU!!!

    VIVA LA VIDA!

  2. Lipe "Suzana Fã" Wave
    26 Junho, 2008 às 1:53 am

    Suzana… vc é incrivel…
    Meu Deus…

    Parabens e Muito Obrigado….

    Coldplay tinha q fikar sabendo disso e fazer um show na sala da tua casa como prêmio…

    Muito bomm…
    (por isso que não saio mais daki)

  3. crisantos
    26 Junho, 2008 às 7:13 am

    ^ Concordo com o Lipe!! Santa Su!! 😀

  4. Talita
    26 Junho, 2008 às 12:48 pm

    Uau…..

    muito show de bola !! Parabéns mesmo!!

    =D

  5. 26 Junho, 2008 às 3:22 pm

    “Coldplay tinha q fikar sabendo disso e fazer um show na sala da tua casa como prêmio…”

    No caso seria só aquela parte acústica em que as cabeças do Will e do Chris literalmente se tocam.

    Mas eu não iria reclamar.

    Obrigadão, gente!

  1. 27 Junho, 2008 às 5:02 am

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