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Life, death and butterflies

Artigo do Los Angeles Times, de 22 de junho:

CHRIS MARTIN estava abaixado, amarrando o cadarço.  […] o vocalista, que é geralmente afável, esticou-se no sobre o tapete da sala abafada e mal-iluminada dos bastidores do programa de Jimmy Kimmel. Faltavam horas e horas para o show finalmente começar e os músculos do cantor estavam constrictos e sua expressão, amargurada. Finalmente, ele nos fitou com um olhar suplicante. “Podemos sair daqui? Vamos para algum outro lugar. Talvez um lugar arborizado? Tenho um carro e um motorista…”.

Alguns minutos depois, o esbelto britânico se esgueirou em um beco atrás dos estúdios do programa e entrou em uma picape negra, a qual transportou o cantor e seu acompanhante rapidamente para o Griffith Park. “Parece bom”, ele disse, dando tapinhas na janela. “É, vamos descer aqui”. Tão logo seus pés pisaram a grama, Martin ficou tão alegre quanto o labrador que passava por ele. Beija-flores e borboletas flutuavam no ar e Martin estava tranqüilo a ponto de começar a contar confissões e piadas, as quais são quase indissociáveis no caso de Martin.

“Assim como milhares de pessoas no mundo, eu não agüento escutar Coldplay”, disse Martin, piscando debilmente. “Mas minha razão é profissional. Estou sempre pensando no passo seguinte e, também, buscando algo que o inspire. Veja bem, somos a única banda que não podemos plagiar. Logo, não há motivo para eu escutar [a minha própria música]. Se eu pensar ‘Isso é bom’, eu vou querer usar; não vai dar certo. Porém, se eu pensar ‘Nossa, isso é péssimo’, então eu vou ficar deprimido. É uma situação clássica -‘ou você perde, ou você perde'”.

Se você escutar Coldplay -e muitas pessas o fazem, considerando as 11.2 milhões de cópias que eles venderam só nos Estados Unidos-, então você já sabe que Martin é uma voz sensata numa fase irônica. Isso expôs a banda a críticas cruéis (certa feita, Noel Gallagher disse que eles eram quatro Didos com pênis), mas, ao contrário de recuar, Martin decidiu também entrar na brincadeira. Ninguém debocha mais de Chris Martin do que Chris Martin ele mesmo. Ele tira sarro de seu cabelo, roupas, dieta e o seu célebre falsete. Ele até ridiculariza a si próprio por pensar que, no fundo, no fundo, ele é despojado por não o ser: “Nunca quisemos ser assim e nunca vamos ser. E acho que, até certo ponto, isso é até legal. Mas não posso ficar pensando muito nisso porque, se você fica se prendendo muito nisso, você automaticamente não é despojado. Peraí, fui longe demais. Não sou despojado. De novo”.

Coldplay tem um novo álbum, Viva La Vida Or Death And All His Friends, o qual chegou às prateleiras com considerável furor. A canção Viva La Vida alcançou o primeiro lugar na Billboard Hot 100 [parada estadunidense] e, no iTunes, a pré-venda do álbum alcançou as maiores cifras do comércio digital. A banda ganhou fama pelas músicas refinadas, guiadas pela melodia do piano. São conhecidas tanto as suas altivas canções de alegria, como aquelas que acompanham reflexões em dias de chuva. No entanto, com esse novo disco, o quarto, a banda apostou suas fichas na reinvenção. As músicas ainda vêm do coração, mas, talvez, sejam mais viscerais.

Não obstante, o Coldplay não será capaz de conquistar certas pessoas que, francamente, os detesteram demais para começar a escutar agora. O New York Times, certa vez, os caracterizou como “a banda mais insuportável da década”, o que diz menos sobre os músicos do que sobre seu sucesso entre o público, o que é insuficiente para diminui-la. Martin credita o julgamento ao fato de ele expressar emoções abertamente quando está cantando. “Se você se permite ser vulnerável nas músicas, as pessoas vão senti-las muito mais”, ele disse. “Por outro lado, muitas outras pessoas vão odiá-las e zombar delas. É quase como fazer um acordo com o diabo, mas estou contente com esse acordo. Não parece certo cantar sobre coisas nas quais eu não acredito”.

Campus como catalisador

EM SETEMBRO de 1996, um tímido calouro chamado Jonny Buckland, recém saído de Mold, cidade do País de Gales, chegou na Universidade de Londres, com seu violão. Seu plano era “olhar para as estrelas” (ele estava estudando Astronomia), mas a sua vida tomou um rumo diferente quando, durante a primeira semana de aula, ele conheceu Martin, um rapaz desengonçado de Devon, que o convenceu a formar uma parceria musical.

Juntou-se a eles o baixista Guy Berryman, um galante escocês que foi estudar engenharia. Tendo conhecido as tentativas amadoras de Martin na composição de músicas e, após algumas noites no pub, Berryman pediu para fazer parte do grupo. Will Champion, um estudante de Antropologia que tinha mais conhecimentos sobre tribos do que sobre percussão, foi chamado para fechar o time. Batizaram-se Starfish, mas o nome não pegou. Eles cunharam um melhor a partir do título “Child’s Reflections, Cold Play”, uma coletânea do poeta estadunidense Philip Horky.

O álbum de estréia, Parachutes (2000), rendeu aclamações com […] Yellow e foi sucedido por A Rush Of Blood To The Head (2002), o qual incluiu grandes sucessos como In My Place, Clocks e The Scientist. Foi nesse momento em que o caldo entornou. Turnês fatigantes, reviravoltas em sua vida pessoal e a turbulência do sucesso colocou o Coldplay em uma posição instável.

Os integrantes dizem ter se sentido pressionados pela gravadora EMI/Capitol para que criassem um novo disco com características e sonoridades semelhantes. O lançamento do álbum foi atrasado e as ações da empresa fonográfica, conseqüentemente, despencaram, aumentando a tensão. O resultado foi X&Y , um CD lançado em 2005 e que atingiu uma vendagem considerável. No entanto, sob a ótica da banda, o que faltou na composição foi clareza.

Para reconquistar sua confiança, Martin disse, o Coldplay buscou por um lugar em que a “fabricação caseira fosse possível novamente”. Eles o encontraram em um beco perdido nas ruas de Londres.

“Achamos essa pequena padaria, a compramos e a transformamos em, bem, é quase um clube”, afirma o vocalista. “Você leu Harry Potter? É parecido com a estação de trem que eles usam, a plataforma nove e meia, a qual não pode ser encontrada a não ser que você saiba onde ela esteja. Se você passar por lá bem rápido, parece que não há nada, mas, se você entrar, parece um mini-paraíso de uma banda. Tudo é pintado à mão. Costumava haver um jogo de dardos, mas ele foi suprimido. Banimos algumas diversões. A última coisa que você precisa quando você tentando reinventar a si mesmo é uma mesa de sinuca. Bateristas tendem a gostar mais de sinuca do que de bateria. Eles podem brincar com ‘baquetas’ maiores”.

Do mesmo modo, a banda chamou Stella McCartney para dar alguns conselhos sobre vestimentas. Seu objetivo era criar um visual que mesclasse “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e um Exército da Salvação um tanto precário. Um alfaiate norueguês costurou jaquetas e calças, as quais eles customizaram com fitas […]. “É meio nerd, mas bancamos as costureiras por alguns dias”, declara Martin. “Vestir as roupas que tem um dedo seu dá uma sensação boa. É o mais perto que vamos chegar da Roc-A-Wear [marca de roupas criada por Jay-Z e Damon Dash, penso eu. Não é original, mas é uma idéia boa. The Clash fez isso; Green Day fez isso; Adam Ant; várias pessoas. Te faz sentir como um artista de verdade”.

É também uma mesagem de fraternidade: “Creio que toda banda chega num ponto onde todos os membros devem encontrar uma maneira de estar unidos, senão, eles acabam vivendo em países e só se encontrando no palco. Quando você fica famoso, você tem duas reações em relação aos seus companheiros. Das duas uma: ou ‘Eu consigo fazer isso sem vocês’ ou ‘Eu realmente não posso fazer isso sozinho’. Você é mais sortudo se for da segunda categoria. Sempre tivemos apreço um pelo outro”.

Refazendo as ligações

X&Y não foi um álbum de fato; é uma coleção de singles. Agora, a banda lamenta-se da decisão, a qual foi feita em função da era do download de músicas. “Acreditamos que há bons álbuns esperando para serem feitos e eles devem ser feitos”. Para Viva La Vida, o Coldplay chamou para a produção Brian Eno, famoso por seu trabalho com o U2. A mudança foi significativa. Sons intersticiais [?], faixas escondidas, um órgão de igreja aqui, tabla norte-africana palmas do flamenco lá. Viva La Vida tem instrumentos de corda à la Beatles, um estilo parecido com o do U2 […] e um majestoso e antigo sino de igreja, o qual, escutando com cuidado, é seguindo pelo canto de pássaros, tal qual a rabiola de uma pipa. Em sua crítica, Ann Power, do Times, declarou que a presença de Eno fez com que o Coldplay “desse, oficialmente, um passo em direção à grandiosidade”.

Relacionar-se com figuras lendárias não deixam Martin nervoso. “Uma maneira para se motivar é olhar para as pessoas que fizeram coisas muito melhores. Desse modo, eu não enxergo a gente de um ponto de vista da história, mas enxergo a história, pensando no que deveríamos estar fazendo. Por exemplo, o que os Beatles fizeram aqui, o que o Police fez nesse estágio; por que Stevie Wonder fez aquilo, o que o Jay-Z fez. Se você vai entrar na corrida, você vai ter de correr ao lado das melhores pessoas que já existiram. Mesmo que você chegue em último, você vai ter corrido bem mais rápido do que teria feito sozinho”.

Martin disse que o tempo tem passado mais rápido nos últimos tempos. Ele e sua esposa, Gwyneth Paltrow, são pais de duas crianças, as quais os motivaram a eliminar as distrações de sua vida. No dia anterior à visita a Griffith Park, ele e a banda estavam no MTV Movie Awards para tocar Viva La Vida ao vivo, pela primeiríssima vez […]. Nos ensaios, Martin estava angustiada -tudo parecia estar dando errado.

A banda, empunhando seus uniformes, persistiu ensaiando até a performance propriamente dita, feito nada simples, considerando o desinteresse da platéia. Os músicos foram conquistando o público no decorrer da canção, quando uma chuva de papel picado foi lançada dos dois lados do palco. E não era um confetinho qualquer, mas no formato de borboletas, as quais pareciam flutuar. É o tipo de imagem que causaria ânsia nas pessoas que menosprezam o Coldplay, mas eles (e a platéia) adoraram.

“Essas borboletas são importantes para nós porque elas fazem com que a gente se sinta muito… feliz”, Martin rememora. “Em um momento em que você poderia estar se sentindo inseguro, toda vez que lançamos essas borboletas, não podemos deixar de sorrir. Amo tudo o que nós fazemos. Somos muito sortudos e afortunados, mas eu realmente recuo diante de críticas. Desde que haja algumas pessoas gentis e que nos apóiam, fica mais fácil. Porém, ainda assim, são necessárias borboletas te lembrando para simplesmente aproveitar o momento”.

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  1. Bruno Alencar
    27 Junho, 2008 às 3:23 pm

    Apesar de ser meu segundo album predileto, o x&y tem um grande problema, que em 2005 eu ja sentia e agora com Viva la Vida eu confirmo. Apesar de otimas musicas, o album era muito linear. Não exatamente que as musicas eram parecidas umas com as outras. Mas , a producao do album fez o album soar muito linear. Como foi falado “usavam o mesmo truque”….

    Agora com Viva la Vida, as musicas apesar de não ter grandes mudancas com as musicas estilo Coldplay, elas soam mais agradaveis de se escutar.
    Agora, o “problema” de ser uma banda no nivel do Coldplay, são as cobrancas de um novo album sempre diferente do anterior. E talvez, o Coldplay so ganhara “respeito” desses criticos que hojem falam mal da banda, se romper mesmo com o estilo da banda, como o u2 fez com achtung Baby / zooropa.

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