Entrevista: Rolling Stone

Chris entrevistado na Rolling Stone de 26 de junho:

Quando Chris Martin emerge de um carro de passeio de uma sossegada ruazinha em uma tarde de maio, ele parece um ajudante de palco -calças cáqui, capuz negro. Você nunca o reconheceria, o que é provavelmente a idéia. Porém, ele começa a cantar “Girlfriend Is Better”, do Talking Heads, num tom suficientemente alto para ser ouvido em toda a rua. Ele não pode evitar: ele é um figura. O cerco dos paparazzi advindo de seu casamento com Gwyneth Paltrow e de suas duas crianças angelicais fez com que o cantor se fechasse em copas. No entanto, ele não é capaz de manter tal atitude. Enquanto Martin se posiciona para o que ele denomina um “entrevista épica” -três sessões totalizando sete horas- a sua banda se prepara para o lançamento do quarto álbum da banda, Viva La Vida Or Death And All His Friends. “É aterrador”, ele diz. Martin, 31 anos, venera Woody Allen o tanto quanto ele louva Michael Stipe e tem a mesma sagacidade do jovem espirituoso que um dia fora, além de porções iguais de auto-depreciação e preservação pessoal. A imagem de Martin como praticante de yoga e semivegetariano ascético não é imprecisa, mas ele de fato tomou dois drinques (um guinnes e um whiskey) em duas horas de entrevista e quase ficou ofendido quando hesitei ao pedir um hamburguer na sua presença. “Não sou um fascista em relação a isso”, ele declara. “Não vou te dedurar para a Chrissie Hynde”.

Em contraste com a afabilidade […] das músicas do Coldplay, Martin é intenso de um jeito desconcertante: ele é benquisto e compartilha do titubeio de Hugh Grant, mas, quando ele se irrita com algo que está sendo dito, o que ocorre com freqüência, seus olhos faíscam, como se ele fosse um cientista maluco dando detalhes de seu plano para dominar o mundo. Tal impulso, somado a facilidade que o Coldplay tem para um rock sincero e edificante nos moldes do U2 -paralelamente melódico e grandioso- deu base para a ascensão de uma banda de faculdade ao posto de uma das maiores bandas da década. Não obstante, Martin não consegue parar de se sentir como se estivesse aquém disso tudo. “Você tem que ter essa avidez. Se sua esposa já saiu com o Brad Pitt, você sente a necessidade de provar a si mesmo, sabe como é, né?”

Qual foi a sensação da banda ao gravar o quarto disco?
No nosso último álbum, recebemos críticas severas de algumas pessoas e, no final, pensávamos que ninguém em absoluto iria querer produzir um álbum nosso. Éramos grandiosos mais do que éramos bons -queríamos muito provar a nós mesmos em um nível elementar. Então, perguntei a Brian Eno “Você conhece qualquer produtor que poderia nos ajudar a sermos uma banda melhor?” e ele disse “Não quero puxar a sardinha pro meu lado, mas eu posso ser a pessoa certa”.

Qual foi a avaliação dele?
Ele declarou: “As músicas de vocês são excessivamente longas. E vocês são muito repetitivos e usam os mesmos truques com muita freqüência e suas letras não são boas o suficiente”. […]

Como vocês reagiram?
[…] Você pode ou se acomodar, ficar olhando pros seus discos de platina e dizer “F***-se, você está errado” ou admitir -“Ok, ele tem alguma razão”. Brian e Markus [Dravs, co-produtor] nos transportaram para uma espécie de campo de concentração. Em vinte minutos, esquecemos qualquer vendagem dos discos anteriores.

Não houve consenso entre as críticas do X&Y, mas a mais dura foi a do New York Times, a qual caracterizou o Coldplay como a banda mais intragável da década. Como vocês lidaram com isso?
[…] Foi o primeiro ataque de verdade à nossa banda e de uma publicação que todos nós respeitamos. Concordei em muitos pontos, algo do tipo “Bom, eu realmente falo do óbvio às vezes e realmente conto com velhos truques, às vezes”. Dessa forma, sob algum aspecto, foi aliviante saber que alguém mais tinha percebido isso. E, pessoalmente, há algo de glamuroso em ser atacado e seguir em frente. Quando você faz algo de que as pessoas não gostam muito, você está livre novamente. […] Você não precisa contar com o piano, você não precisa recorrer ao falsete, você não precisa fazer com que cada música seja uma canção de amor.

Há liberdade nas novas músicas; não é mais o verso-refrão-verso-refrão.
Bom, eu ainda acredito piamente em refrão, mas teve um dia em que Brian Eno chegou e disse “Acho que o rock progressivo é totalmente subestimado, mas, um dia, vai voltar à sua antiga forma. E creio que vocês deveriam considerar não necessariamente usar as mesmas estruturas que têm explorado desde então”. Sempre que ele achava alguma coisa estimulante, nós a fazíamos.

No primeiro single, “Violet Hill”, você canta [“And a fox became God”] e “carnival of idiots on show”. A música foi inspirada pelo Fox News?
Ninguém tinha entendido isso ainda, ninguém na banda, ninguém. O primeiro verso dessa música é o primeiro de todos os que escrevemos. Anos atrás, Guy [Berryman, baixista] ouviu essas primeiras palavras e a primeira melodia, “It was a long and dark december”, ele disse “Ok, vou entrar na banda”. Mas a gente simplesmente não tinha as outras 49 linhas até o ano passado. Então, um dia, estava assistindo Bill O’Reily e percebi: “Sei como terminar aquela música”. Meu melhor amigo Tim é um músico de uma banda chamada High Wire, mas também tem de trabalhar num bar. Ele estava tendo problemas com o chefe, o que me fez pensar que tantas pessoas passam a vida ouvindo ordens de pessoas que elas simplesmente não gostam. Tive essa idéia, assisti ao Bill O’Reily e todas as outras palavras foram simplesmente surgindo.

Em “Death and All His Friends”, há um verso bem atual: “I don’t want a cycle of recycled revenge”. 
Esse é um verso do Brian Eno. Tinha uma lacuna nas letra: “I don’t want a battle from beginning to end. Interrogação, interrogação, interrogação. I don’t want to follow death and all his friends”. Um dia, estávamos todos fazendo um lanche e o que aconteceu foi mais ou menos assim: “I don’t want to watch too many episodes of Friends [Não quero assistir a episódios demais de Friends]? Não, não serve. I don’t want to listen to Radiohead’s The Bends [Não quero ouvir a música do Radiohead, The Bends]? Não. I don’t want to eat any Jerry and Ben’s [Não quero comer nenhum Jerry and Ben’s]? Não. Enfim, o Brian Eno apareceu com o verso: ‘Eu meio que gosto desse trecho. Vocês deveriam usá-lo'”.

Isso realmente dá voz à situação atual do mundo.
E é a pura verdade, cara. Você pode ver isso em todos os lugares. Quando vamos aprender? Nunca vamos é a resposta. É a coisa mais degradante e os últimos seres humanos da Terra vão realmente dar um chutão em si mesmas. Você e eu estamos vivendo em uma época em que a vingança é o que há de mais perigoso porque os interesses econômicos são majoritários e os armamentos, tão avançados.

Você tem alguma razão para ter esperança? 
Assim que Barack Obama se tornar presidente, as pessoas vão ficar um pouco mais otimistas. A candidatura do Obama de fato mudaria a opinião do restante do mundo sobre os Estados Unidos em um segundo. A imagem dessa país nesse momento é realmente negativa. É deprimente porque metade dos estadunidenses são as pessoas mais legais do planeta. No entanto, eles têm sido tão mal interpretados.

Você acredita que ele pode vencer? 
Acredito. Mas também acho que o justo seria deixar todo o mundo participar dessas eleições porque elas afetam a todos nós. Se isso acontecesse, não há dúvida de quem venceria. Não há dúvida. É claro, Obama é um ser humano como qualquer um de nós. Ele vai acabar estragando tudo. Porém, eu só estou tentando ver o lado bom da coisa. Qual é o sentido de pensar negativo? Aonde isso vai levar a gente? Isso faz com que você participe de um programa de rádio, mas não muda nada no mundo.

Nos seus esforços para fazer alguma coisa ao mundo, você agüentou muita coisa por desenhar o símbolo do comércio com justiça nas suas mãos. 
Uma das grandes conversas que sempre temos na banda é que não enxergamos rock & roll como usar drogas ou fazer rebeliões usando calças de couro, porque, para nós, isso não é mais rebelião. O espírito do rock & roll é liberdade. É fazer o que você acredita e não se importar com que as outras pessoas dizem.  E se isso significar desenhar um símbolo na sua mão, então desenhe um símbolo na sua mão. Não importa se você não parece tão legal quanto os Ramones -você nunca vai, de qualquer forma. Sei que vamos ser ridicularizados e parecer estúpidos por causa disso, mas enquanto acreditarmos no que estamos fazendo, não podemos pedir desculpas por isso.

*****

Você cresceu em uma cidade da zona rural do sudoeste inglês, em um ambiente bem religioso. Como isso te afetou?
Cresci com a imagem do céu e do inferno agigantando-se sempre. Nessa época, qualquer pensamento sobre garotas que ocorresse, por menor que fosse, te faria ir pro inferno. Estava arraigado na gente: essas coisas são incorretas. Era preto-e-branco e assim ainda o é para milhões de cristãos de direita nos Estados Unidos. Passei um ano pensando que seria castigado se cantasse “Sympathy for the Devil”, dos Rolling Stones.

Punição como ir pro inferno?
É. Quando eu tinha uns 14 anos, a primeira banda de que eu fiz parte queria tocar “Black Magic Woman”. Minha reação foi “Não posso cantar isso porque vou ficar com um carma negativo”. Você não sabe das coisas quando é criança. Porém, à medida em que o tempo vai passando, as falhas vêm à tona e você começa a indagar: “Não estou bem certo sobre esse negócio de inferno. E também não tenho certeza se realmente há algo errado em ser gay e se somos nós que estamos certos ou eles é que estão equivocados”.

Você já pensou que era homossexual?
Foi mais uma coisa do tipo “Caramba, e daí?”. Porque eu foi criado para pensar que isso era muito errado. Mas, depois, me veio uma questão: Quem se importa? E passou a não ser mais um problema. Parece bobo falar isso agora, mas quando se é criança, você pensa: “Vou queimar no inferno por toda a eternidade se eu gostar de outros meninos ou se eu me casar com algum judeu”.

Algo me diz que alguma coisa te fez perceber que, na verdade, você era hetero.
Bom, a minha opinião foi drasticamente mudada por peitos. Vamos ser sinceros, eles são fantásticos.

Durante a infância, qual foi a primeira música que chamou a sua atenção?
Provavelmente “Bad”, do Michael Jackson, e “Take on Me”, do A-Ha. E sempre ia à igreja, então o que mais ouvia eram hinos. Toda essa história de vida-e-morte da nossa música deve vir daí.

Quando você começou a cantar?
A primeira vez em que cantei em público foi num evento da escola, aos 11 anos. Cantei uma música sobre jornais que havia escrito. Algumas pessoas realmente caíram matando. Outras não. Lembro que duas meninas vieram falar comigo depois: “Vimos você cantando”. Depois, as duas deram rizadinhas e saíram correndo, como se quisessem dizer “Foi uma bosta”. E a minha vida inteira tem sido a repetição desse episódio.

Então por que você continuou?
Deixei o canto de lado por um tempo. Depois, alguns amigos queriam tocar “Sweet Child of Mine” numa apresentação da escola e eu disse “Caramba, deixa que eu canto”. No final, um cara chamado Tom me disse “Chris, será que você pode cantar de um jeito que não lembre tanto a Tina Turner?” e eu respondi: “Mas eu estava tentando cantar como o Axl Rose!”.

Pensando bem, não tem tanta diferença assim.
Mas aquilo foi demais para aqueles caras, então eu propus “Tem a música que eu escrevi”. Acho que o fato de muitos músicos comporem seus próprios versos é creditado à incapacidade de fazer covers. A partir daí, eu estive em muitas bandas: Identity Crisis… Floating Insomnia… E, então, fui parar numa banda chamada Rocking Honkies, a qual meio que tocava blues. Fazer parte dela foi o melhor aprendizado. Geralmente, as melhores músicas têm apenas um acorde. Eu tocava piano em músicas como Mustang Sally.

Nos primeiros trabalhos do Coldplay, havia traços bem marcantes do soul do seu vocal.
Provavelmente era soul, mas através do filtro de Jeff Buckley, falando com a mais pura sinceridade. Antes disso, eu passei três anos tentando parecer com o Eddie Vedder.

Quando você tinha treze anos, seus pais te mandaram para um colégio interno. Como foi a experiência?
Não acho que o període entre 13 e 15 anos seja fácil para nenhum garoto. É uma espécie de corrida da puberdade e, se você está na lanterninha, não é uma competição muito agradável para se estar. Eu fui um garoto hiper religioso, meio ingênuo e muito preconceituoso. Fui impopular por três anos. Uma mudança brusca ocorreu por volta dos 16 anos, mas eu já havia sido tachado como a cara “Vou-dar-o-fora-daqui-e-mostrar-a-verdade”. Sou muito agradecido por essa época, por ter enfrentado o conservadorismo da mentalidade adolescente do “Você é gay, você é péssimo nos esportes, você é isso, você é aquilo”. Porque isso me fez pensar “Não quero parar em algum banco, onde eu vou ter que agüentar a mesma m**** e as mesmíssimias pessoas todos os dias, pelo resto da minha vida. Tenho que me livrar dessa vida monótona -escola pública, depois, universidade, banco, casa de campo na França”. Parece que a vida tinha mais a oferecer do que simplesmente rugby e diversão barata no final de semana.

Você ficou marcado por declarar que não havia perdido a virgindade antes do 22 anos. […] Por que a espera?
Bom, questões religiosas e coisas do tipo. E confiança também. Antes dos 21, eu passei por situações delicadas com garotas. Mas isso não me afetava, eu sempre sempre convivi com muitas pessoas do sexo feminino.

Você ficou conhecido como “o amigo”.
Isso aconteceu comigo muitas e muitas vezes. Conclui: “Tenho que ser uma estrela do rock, porque ser o cara legal, de que todo mundo gosta mas que com quem ninguém quer ter relações não é nada bom”. Não quero ser a pessoa que faz só todo mundo cair na risada […]. Todas essas coisas vão se acumulando até provocarem alguma reação

Você é um grande fã dos filmes de Woody Allen. Parte dessa atração é creditada na crença de que caras neuróticos podem sair com mulheres incrivelmente bonitas?
É, e ele estava certo. Mesmo eu sou evidência disso.

Você acha que as mulheres ficam mais atraídas por você quando está no palco?
E para que outro motivo eu tocaria se não para isso?

Você não gosta de falar sobre o seu casamento. Devo me atrever a perguntar como foi o seu primeiro encontro com a Gwyneth?
Foi a coisa mais pitoresca que você pode imaginar. […] Que tal isso: Nos conhecemos no Madame Tussauds e só meia hora depois é que eu me toquei que estava conversando com uma estátua de cera. Não havia conhecido a de verdade ainda. Mas foi um bom treino. É uma cena engraçada para um filme, creio eu.

Você teve muitos relacionamentos sérios?
Só tive um relacionamento sério na vida.

Além dessa?
Não, é desse de que estou falando. Isso é estranho? Não acho que é estranho. Não seria estranho há 200 anos.

Não, não é estranho. No entanto, é de fato de estranho o fato de que esse único relacionamento ocorra entre uma estrela do rock e uma atriz famosa.
Eu sei. Mas isso é o amor. Simples assim. Pense em Romeu e Julieta ou pessoas com casamentos realmente difíceis -pessoas de nacionalidades distintas, de etnias diferentes, primos até. Muitas pessoas enfrentam situações conflituosas.

Você se deu conta da intensidade que seria estar com uma atriz de cinema?
Sim, mas sempre achei que seria ótimo estar ao lado de uma mulher muito poderosa, porque isso sempre te mantém na linha e lembra que você ainda não é lá muito bom. Eu sabia que haveria aspectos negativos, os quais são todos óbvios demais para serem mencionados, mas os positivos os compensam de longe. E ser casado com um mulher bem-sucedida e poderosa basicamente te deixa ansioso por melhorar sempre.

Você fica usando a palavra “poderosa”.
Mas você sabe o que quero dizer. Ser alguém na música, mesmo um grande nome na música, nunca será o mesmo que ser um artista de Hollywood.

Te incomoda ver a sua esposa com, digamos, Robert Downey Jr. num filme?
Ah, não, não, não. Não sou um cara ciumento. Acho que se você for ciumento nessa situação nunca será muito feliz. Mesmo que a sua namorada ou esposa estiver em casa enquanto você está em turnê, você iria enlouquecer, já que ciúmes é tão difícil de controlar.

Você é jovem para ter dois filhos. Você já havia pensado que isso aconteceria tão cedo?
Você tem de deixar a vida acontecer. Do contrário, A) sua vida é chata, B) seus versos são chatos porque você não deixa a sua vida acontecer.

Mas, quando se é um roqueiro, você tem a opção de deixar a sua adolescência se prolongar indefinidamente.
Tem, mas, aí, sua música fica um lixo. Diga alguém que é perpetuamente adolescente que tenha feito um bom álbum.

Você reagiu violentamente contra as atitudes de alguns paparazzi -houve um incidente com o carro de um fotógrafo e você deixou um paparazzo no chão este ano.
O motivo por querer manter a minha vida em particular, por sempre estar de capuz, por entrar e sair dos lugares sem vontade de ser notado é que não quero encontrar um certo tipo de pessoa porque isso evoca uma espécie de fúria que não posso realmente controlar. Você pode gastar o dinheiro público com uma guerra que provoca a morte de civis, mas não pode dar uma lição em alguém que chateou o seu companheiro de banda ou seu bebê. Ser preso não é nada legal. É assustador. É por isso que não gosto de abordar esse lado da moeda. Igualmente, não saio andando em tapetes vermelhos porque isso atrai um certo tipo de pessoa de que eu simplesmente não gosto. Dessa forma, eu me mantenho longe delas porque você não pode sair por aí agredindo fisicamente as pessoas. Houve um momento em que eu pensei “Tenho de ficar longe das fichas policiais e das celas. Isso não é nada bom. Isso definitivamente não é uma tática que funciona”.

*****

Você e Jonny Buckland foram os primeiros integrantes do Coldplay. Como vocês se conheceram?
Morávamos no mesmo prédio na universidade, em Londres. Não durmo lá muitas horas por noite, então eu sempre ficava acordado, madrugada adentro, fazendo trabalho ou escrevendo. Jonny ficava às 3 da manhã tocando guitarra num dos quartos ao lado. Quando falei “Não sabia que você tocava”, ele me respondeu “Eu não conto pra muitas pessoas, mesmo”. E algo na minha mente disse “Certo, vamos nos encontrar amanhã”. E realmente nos encontramos e passamos todos os dias juntos desde então. Ainda hoje, ele não gosta de contar às pessoas que ele toca guitarra. Mesmo no palco, ele esconde o máximo que puder. Minha vida toda é dedicada a tirá-lo das sombras porque eu sei que ele é um “herói da guitarra”, pra mim, pelo menos. Ele é a única pessoa que já fez com que algo que escrevi soasse bom.

Quando vocês começaram a compor juntos, quanto ainda faltava pra se consolidar o Coldplay que hoje conhecemos?
Não muito. Quando Guy chegou, faltava pouco. Quando Will [Champion] se juntou, faltava ainda menos. Ensaiamos todas as noites por dois anos. Por um longo período não tivemos um baterista porque o Will não havia entrado no grupo ainda, não tinha Stumpy Joe, não tinha baterista original. Então, não dava pra fazer shows ou qualquer coisa do tipo. Só escrevíamos e escrevíamos e escrevíamos. Estávamos tão obcecados que um membro da bamda, cujo nome permancecerá desconhecido, fingiu que havia torcido o tornozelo e ficou um mês fora, doente. Mas, quando ele voltou ao trabalho, ele teve que ficar com um conjunto de chaves no tênis pra lembrar que ele devia estar mancando. Isso é o quanto éramos dedicados.

Qual foi a música que fez vocês estourarem? Quando vocês perceberam que não eram simplesmente uma banda de faculdade?
Bom, todo mundo vive com o medo de que seu truque seja revelado. Nunca houve um momento em que pensei “É, é isso. Somos uma banda de alcance mundial e ninguém pode tirar isso de nós”. Porém, assim que “Yellow” surgiu, pensei “Tá, essa música soa como um grande hit pra mim. É isso”.

É engraçado falar “surgiu”. Você escreveu a música.
As músicas ruins vêm de mim e de meu conhecimento sobre como escrever músicas e as boas vêm de algum lugar, de algum lugar que não faço idéia de onde seja. E elas tendem a ficar pairarando no ar, lá por umas duas da manhã. Você só tem que estar lá para apreendê-las. É assim que eu me sinto em relação às músicas boas. […] E é por isso que a maioria dos bons músicos sabem bastante coisa sobre as músicas dos outros, como elas se encaixam, a lógica dos arranjos e o que acontece na segunda parte de “Once in a lifetime”, do Talking Heads para, subitamente, aprimorá-la. No entanto, ninguém é capaz de me contar a origem da melodia de “Strawberry Fields Forever” porque ela provalvemente surgiu assim. […] Ainda assim, você pode ouvir o demo [no documentário “The Beatles Anthology”]. É boa. É só um acústico e, então, se torna em “Straberry Fields” de alguma forma. É nessa parte que entra o trabalho intenso.

Quais músicas te ajudaram a aprender o ofício?
Eu me viciei no The Black Crowes por um tempo:The Southern Harmony and Musical Companion. E em Dylan: Blood in the Tracks e Bringing It All Back Home. A-ha. Oasis. […] E Ok Computer, obiviamente.

Você compõe em estado alterado?
Bom, sinto em adimitir isso, mas tenho o hábito de tomar pílulas para dormir. Não consigo dormir, por isso tenho de usar remédio pra dormir. Não gosto de falar isso, mas isso realmente leva o cérebro pra uma outra dimensão.

Você está dizendo que toma uma pílula pra dormir e fica acordado?
É, o que eu ótimo porque é um remédio que só é vendido com prescrição médica. Meu problema é que, com freqüência, eu tomo esse remédio, mas fico empolgado com alguma música e eu vou tocar, então o medicamento começa a ter efeito bem no meio. Tenho um espacinho, onde ninguém pode me ouvir tocando no meio da noite e é onde passo a maior parte da noite. Eu acordo no dia seguinte e encontro todas essas notas. Não creio que seja alguma para se orgulhar. Me envergonho um poquinho disso.

“Yellow” ainda é sua música mais famosa. Como você a compôs?
É bom tentar e escrever sem saber o que você está fazendo. Eu tinha esse violão modificado para tocar outra canção, “Shiver”, a qual era pra ser o nosso grande hit; estávamos no País de Gales, gravando-a. E o que me assusta é que [“Yellow”] foi um completo acidente. Estava de papo pro ar e nosso produtor, Ken, estava falando como o céu estava bonito por causa das estrelas. E, então, enquanto eu estava esperando para fazer uma gravação, eu comecei a cantar: “Look at the stars/Look how they shine for you/They were all yellow”.

Era apenas esse verso, essa melodia?
É, depois eu corri -quando tenho um problema com o refrão, eu gosto de ir no banheiro masculino por causa do eco; como o aroma não é muito agradável, você tem que escrever rápido. Compus o refrão e mostrei ao Jonny e ele começou a tocar guitarra: “Então é isso”.

Os versos dessa música expressam algo que é muito importante para você, um tipo de estupefação diante da beleza do mundo.
É importante para mim porque, do contrário, sem esperança, o que há? Sem o encanto, sem essa estupefação?

Vocês fizeram um cover de “What a Wonderful World”, a qual passa uma noção semelhante.
Não são só as pirâmides ou o Rio Amazonas. É também a Beyoncé. Ou o bolo de chocolate que comemos ontem. É como essa cena em Manhattan, em que Woody Allen nomeia as coisas que fazem a vida tão brilhante. E eu tenho uma lista bem, bem, bem longa delas. E você também, tenho certeza.

É, você tem que se agarrar a essa lista.
É, senão você acaba se matando.

*****

O que vocês acharam da piada feita n’O Virgem de 40 anos [“Sabe como eu sei que você é homossexual? Você gosta de Coldplay!”]?
Estava num avião quando vi isso. É alguma coisa relacionda a ser gay, certo? Ser gay por gostar de Coldplay, né? Legal, cara. Ficaria preocupado se apenas homens brancos, heterossexuais e extremistas gostassem do Coldplay.

Vocês nunca foram uma banda que arrebata o público com um som muito pesado ou coisa que o valha.
Bem grosseiramente falando, quando você está no palco, o som de todos os rapazes aplaudindo e gritando não é tão legal quanto o som de muitos garotos e muitas garotas ao mesmo tempo. E, quando você olha pra platéia do palco, ver um monte de garotas é a melhor coisa do mundo.

Muitas bandas têm dificuldade para conseguir fãs do sexo feminino.
Têm. Acho que é por isso que muitas pessoas dizem que não somos uma banda de rock, na verdade. Não nos encaixamos muito bem nessa categoria como um todo. Suponho que a gente faça um rock mais “suave”. Não sei em que seção colocam nossos CDs nas lojas de discos. Bom, quase não há mais lojas de discos, então não vou me preocupar com isso.

Mas era perceptível desde o começo que mulheres estavam reagindo bem às suas composições?
[…] Nós nunca tivemos esse tipo de objetivo em mente; nunca pensamos “Isso é feminino demais pra fazer”.

Todos percebem uma certa vulnerabilidade emocional nas suas músicas.
Sim, mas não creio que isso seja algo feminino. Todos os homens são frágeis e vulneráveis também. Todas as mulheres que conheço são muito menos vulneráveis e muito mais fortes. Talvez sejam apenas as mulheres que conheço. Acho que os garotos, nós, homens, são bem mais fracos e sensíveis do que gostaríamos de admitir.

De modo geral, você gosta do seu trabalho?
Tá brincando? Eu morreria por ele. Nem acredito que o tenho. Assim, enquanto eu o tiver, vamos tentar e ser o melhor que pudermos. Apesar de toda a insegurança e tudo o mais, há uma quantidade imensa de energia, sabe? Não queremos parar até que tenhamos feito algo que seja realmente bom. Temos de manter o foco. Do contrário, qual é o sentido de se estar vivo?

Quando montarmos uma biografia formada só por fotos, qual deveria ser a imagem inicial?
Provavelmente o assassinato e o subseqüente show em tributo.

Não, sério.
O quê? Começaríamos com Barbra Streisand cantando “Yellow” na Madison Square Garden junto a Mariah Carey e, no fundo, uma foto bem grande da gente, com um grande ponto de interrogação sobre como a balsa em que estávamos afundou. É assim que eu começaria.

Como você finalizaria?
Terminaria com um grande orgia, porque penso que o público iria entender.

O que o seu obituário diria?
Tem um episódio do Curb Your Enthusiasm em que transcrevem mal um obituário e, ao invés de escreverem “beloved aunt”, escreveram “beloved cunt”. Eu sempre acho que isso resume os dois lados da minha vida, os dois lados da moeda. Eu gostaria disso.

As influências musicais de Martin: Como o espírito errante de Bob Dylan e o misticismo de Jeff Buckley moldaram a música do Coldplay.

Radiohead
Nosso relacionamento com o Radiohead é engraçado; éramos crianças quando a carreira deles deslanchou e nós, obviamente, roubamos bastante coisa deles nas nossas primeiras músicas. Por vezes penso que eles abriram o caminho para nós com um facão e nós fomos lá e construímos um shopping a céu aberto. Daria minha bola esquerda para escrever qualquer coisa tão boa quanto Ok Computer; me tornaria um eunuco só por Paranoid Android.

Jeff Buckley
Tentei cantar como ele. Ele havia morrido há pouco tempo quando descobri sua música, então, há esse misticismo: quem é esse angelical falecido tocando essas músicas intrincadas e cantando como uma garota? Se ele não tivesse morrido, seria muito famoso hoje.

R.E.M.
Eu venero o R.E.M. Amo suas mudanças constantes e como você nunca pode descobrir no que o Michael Stipe está pensando. Escutamos infinitas vezes o Automatic for the people, o qual não plagiamos ainda, mas estamos no processo. Nightswimming é tão doce e direta, sem querer chamar a atenção. Nos ingredientes de todas as músicas do Coldplay, sempre tem uma pitada de R.E.M.

Michael Jackson
Escutei músicas do Michael Jackson mais do que qualquer pessoa o fez, no ano passado, pricipalmente Off the Wall. Há tanta percussão. Você tem que estudar essas coisas para conseguir que todo mundo fique batendo o pé junto com o ritmo.

Bob Dylan
Por onde posso começar? Ele nunca deu a mínima para o que as pessoas pensavam, se ele estava mudando a sua voz em Nashville Skyline ou se tornando muito cristão nos anos 80. Para mim, tudo isso é demais.

Agradecimentos (e scans): texasluvsjonny, do Coldplaying.com e Nettie, do MyColdplay.

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  1. 3 Julho, 2008 às 1:49 pm

    Às vezes o Chris me assusta um pouco >_<‘

    • 14 Dezembro, 2014 às 10:36 pm

      Well done to think of soeinhmtg like that

  2. Thaís
    4 Julho, 2008 às 12:17 pm

    é da rolling stone brasil?

  3. 4 Julho, 2008 às 12:35 pm

    É da RS estadunidense, Thaís. Esqueci de avisar, desculpe ><‘

  4. simone
    9 Fevereiro, 2009 às 12:08 pm

    cara louco esse Chris, mas suas perfomances são comovedoras
    o cara é bom

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