Spinning round

VIVA COLDPLAY!

 

            Em algum lugar remoto do norte londrino, uma inglesa que chamaremos Myrtle fuma um cigarro em frente às paredes lisas de uma construção que já foi uma padaria e que hoje funciona como estúdio de gravação, escritório e clube de rapazes crescidos para os integrantes de uma das maiores do mundo, o Coldplay. Myrtle diz que ela trabalha no prédio ao lado e, quando perguntada se os caras são bons vizinhos, ela hesita na resposta: “Acho que sim. Eles são na deles. Sempre indo e vindo com guitarras e coisas do tipo”. Erguendo a sobrancelha, ela segreda: “Eles dizem ser músicos, mas você não ouve música alguma vindo dali. Eles podem ser vendedores de heroína, pelo que sei. Ou talvez eles sejam músicos. Acho que eles devem ser muito ruins no que fazem, penso eu”.

            Nesse último ponto, Myrtle, não obstante seu desconhecimento, dá voz a muitos. Muito embora poucos inspirem tal devoção -desde o seu álbum de estréia, Parachutes, o Coldplay vendeu mais de 32 milhões de discos enquanto seus fidelíssimos fãs lotam shows, os quais lembram comemorações engenhosamente iluminadas em Nova Iorque- a banda é criticada com freqüência por produzir asneiras com excessiva determinação, parafraseando a crítica veemente do New York Times sobre o X&Y; uma pesquisa recente declarou que a música do Coldplay é uma das mais eficazes para fazerem as pessoas caírem no sono; e, por fim, uma constatação desdenhosa no Virgem de 40 anos (“Sabe como eu sei que você é gay? Você gosta de Coldplay”) […].

             O quarto álbum da banda, Viva La Vida, responde a críticas com experimentalismo sagaz e desenvolvido com a direção de Brian Eno (guru de U2, David Bowie e Talking Heads, entre diversos outros), com a ajuda de Markus Dravs (Neon Bible, do Arcade Fire) e Rik Simpson. Na carreira do Coldplay, Viva La Vida pode ser o Achtung Baby, com o qual o U2 construiu a sua imagem de austeridade e explorou novas sonoridades com uma linguagem que ainda atrai multidões. Os comentários iniciais sugerem que a composição foi bem sucedida. Mesmo os blogueiros mais irritadiços e relutantes elogiaram a primeira música de trabalho do disco, “Violet Hill”, no qual se condensam o antigo e novo estilos do Coldplay: o belo som do piano de Chris Martin encontra caminho entre as novas e implacáveis batidas (no primeiro dia em que a faixa ficou disponível, seiscentas mil pessoas baixaram a faixa no portal da banda, fazendo com que este entrasse em colapso). Todavia, o segundo single, “Viva La Vida”, representa melhor o novo estilo da banda: uma cachoeira grandiosa e torrencial de instrumentos de corda, tímpanos e acordes harmônicos […].

             Os quatro membros da banda -Martin, o guitarrista Jonny Buckland, o baixista Guy Berryman e o baterista Will Champion- se conheceram enquanto cursavam a Universidade de Londres, no final dos anos 90, no período em que os seres humanos têm de deixar suas casas e artistas devem assinar contratos com corporações bestiais para ter alguma chance de estrelato. […] Em 2005, o sucesso plural da banda havia se expandido de tal modo, que a EMI […] se viu obrigada a rever a previsão de lucro quando o lançamento de X&Y foi atrasado. […]

            Dessa forma, fica fácil entender por que, algumas horas após o pronunciamento de Myrtle, Martin dá início a uma campanha de marketing, já no estúdio particular da banda: “Alguém vai fabricar uma camiseta com os dizeres ‘Eu odeio o Coldplay’? Venderia milhões”. A idéia, apesar de pitoresca, não é inédita; Amy Winehouse fez a mesma piada durante a sua turnê, no ano passado. Pensativo, Martin põe ainda mais lenha na fogueira do sarcasmo: “E venda durante os shows, perto da casa de show ou qualquer coisa do tipo”.

             É a primeira semana de maio e os integrantes estão sentados em torno de uma mesa de madeira, no segundo andar da Bakery, uma sala com paredes brancas, assoalho, pufes, um sofá de pele marrom e estantes com roupas que eles mesmos criaram para serem usadas durante a turnê. Eles adquiriram o local dois anos atrás, em parte para ter um espaço para se reunirem em épocas como essa.

             “A pior coisa que poderia acontecer é que as pessoas poderíam comprá-la”, diz Berryman sobre a camiseta hipotética. Incorporando um falso otimismo, Martin acrescenta: “O sentido da vida é extrair coisas positivas das negativas, luz no fim do túnel e tudo isso”. Pouco tempo após A Rush of Blood to the Head (2002), a banda se separou temporariamente de seu empresário original, um afável e muitíssimo bem educado amigo de infância de Martin, Phil Harvey, tão essencial que a banda o classificou como quinto membro. No X&Y, porém, Martin afirma, o Coldplay “delegou muitas funções às pessoas erradas”, se referindo, basicamente, à sua gravadora. Agora, com Harvey de volta, eles estão tomando todas as decisões eles mesmos, desde os detalhes da divulgação até o planejamento de palco, o qual inclui um trampolim, luzes cintilando durante as músicas, globos infláveis cujas projeções requerem tecnologia incomensurável […].

             “O problema de querer controlar tudo”, Buckland diz, fazendo uma meia-reclamação, meia-piada, “é que você tem de controlar tudo”. Os músicos estão trabalhando em um quadro branco com um pouco de furor porque não há maneira de descobrir como cada um vai conseguir atingir o objetivo pretendido. Como inspiração, uma grande foto dos Beatles dominando o corredor que leva para a sala. […] Só agora alcançando seu apogeu, o Coldplay está pronunciadamente cobiçando o posto de Maior Banda de Rock do Mundo num momento em que a posição parece estar sob a ameaça de ser diminuída. 

             Seria difícil negar a importância, aplicável ou simbólica, da parceria entre Coldplay e Brian Eno. Aspirando à combinação, sem paralelos, entre sucesso comercial e credibilidade do U2, o grupo recrutou o produtor que ajudou a encaminhar os maiores hits daquela banda. Martin conheceu Eno através de Bono e diz que Eno “começou a nos procurar mais quando ele percebeu que estávamos indo na direção errada. Acho que no nosso último álbum, provavelmente como o Super Homem, ele pensou ‘Acho que eles talvez precisem da minha ajuda'”.

             Com energia que Champion caracteriza como “fálica”, o produtor modificou completamente a rotina do Coldplay e descartou suas antigas fórmulas. “Brian não realmente gosta de acordes, de progressões harmônicas engenhosas, marcas comerciais associadas a compositores”, diz Berryman, “Ele está muito mais interessado em ritmo e estrutura. E, sendo o Chris o compositor que ele é, não foi muito complicado combinar esses aspectos”.

             No entanto, a ambição e experimentos do álbum não limitam a sua acessibilidade. Enquanto está escrevendo, Martin diz: “Eu sempre penso num cara comum, de 16 anos, chamado Dave, o qual está no ônibus, indo para a escola. Ele vai escutar nossa música? Da última vez, ficamos muito obcecados sobre quem vai pensar isso e quem vai pensar aquilo mas, dessa vez, estou realmente focado. No Dave. Meu amigo imaginário de 16 anos. Mas não de um jeito estranho”.

             Em alguns aspectos, o Coldplay continua, sem nenhum constrangimento, convencional. Quando Martin menciona a recente decisão do Muse e do Nine Inch Nails de lançar faixas, deixando que os ouvintes a remixassem, ele estremece: “É como deixar alguém te flagrar no banheiro”. Apesar de seu passadismo (não há nenhum BlackBerry entre eles; Martin nunca visitou o MySpace da banda e diz que só descobriu o e-mail recentemente), os integrantes sabem que, para manter o público interessado em seu trabalho, eles têm de oferecer algo novo. Eles só não sabem o que, ainda.

             No que diz respeito ao contrato, Martin diz que o Coldplay tem compromissos com a EMI por “mais uns 71 álbuns. Estamos presos.”. Conseqüentemente, eles não podem fazer nada tão radical quanto a medida pague-o-quanto-quiser do Radiohead e seu In Rainbows. A empresa também fez cortes drásticos na sua equipe técnica e reduziu em cerca de um terço a sua força de trabalho. Tais mudanças foram precedidas pela aquisição da EMI pela Terra Firma, um grupo particular de investimentos, liderada por Guy Hands, o qual não possui nenhuma experiência na indústria fonográfica e, atualmente, está na cúpula da gravadora.

             Perguntados sobre a sua relação com Hands, Champion responde: “Nós não o conhecemos”. […] Posteriormente, pergunto a Martin por que ele não conhece o empresário e ele se ofende: “Deveria? É mais ou menos como conhecer o gerente do mercadinho em que você trabalha. Não sei sobre o que conversaríamos”. Contudo, Hands, contatado por e-mail, afirma que mal pode esperar pode conhecer a banda “como fã e realmente já providenciei para que isso aconteça logo”. Sobre a importância do Coldplay para a companhia nesse tempo crítico, ele admite: “Álbum ou banda nenhuma, não importa o quão brilhante sejam, podem se responsáveis pelas reviravoltas de uma corporação. Isso era o antigo modelo industrial”.

             Então, o Coldplay pensa que Viva La Vida pode salvar a EMI?

             “Não, mas provavelmente pode salvar o mundo”, Chris graceja, “Não quero puxar a sardinha pro meu lado, mas ficaria surpreso se o disco não desse fim à toda a violência e ao sofrimento”.

 

             Após ensaiar por umas duas horas no estúdio -uma sala em que Champion e Berryman decoraram com os dizeres “Viva La Vida!” e “The King is dead”, além de pôsteres gigantes de florestas, dos Alpes e da Terra vista da Lua- os rapazes vão para o andar de cima para uma teleconferência com Dave Holmes, seu outro empresário, em Los Angeles. Alguns dos planos de Holmes para o lançamento despertam, hoje, uma espécie de frustração possível de ser encontrada em submarinos cujo comandante acompanha as estratégias de batalha.

             Holmes pergunta calmamente sobre a prévia comercial para o clipe de “Violet Hill” que a MTV aguarda para amanhã e Martin olha para o empresário como se ele fosse um professor que acabou de anunciar uma prova surpresa. Os membros da banda trocam olhares querendo dizer ah-m***a e Buckland ganha tempo com uma piada: “Na MTV tem clipe?”. “Eles realmente mostram um vídeo por dia”, Chapion continua, “entre os episódios de Hogan Knows Best e My Super Sweet 16“. Martin improvisa: “Eu gosto muito de Hogan. Seria ótimo se Brooke Hogan assistisse ao vídeo; isso sim seria uma grande idéia”.

            Holmes, que não aparece muito contente, pergunta o que está acontecendo; Martin diz que o vídeo não está pronto e, após alguns segundos de hesitação, fala francamente: “Não vai acontecer e isso parece uma idéia horrível. Por que eles precisam disso? É a propaganda de uma propaganda”. Phil Harvey intervém com diplomacia: “O que o Chris está dizendo é que… e nós estamos muito agradecidos por todo o seu trabalho… e sentimos muito mesmo por submetê-lo a tudo isso”.

            É assim que as coisas funcionam, explica Holmes: A MTV precisa do vídeo para deixar no ar por uma semana, antes do lançamento do clipe propriamente dito. A banda teme que isso ofusque um vídeo viral que eles estão preparando para a Internet (uma coletânea de clipes com “Dancing Politicians” -Boris Yeltsin, Tony Blair, George Bush) e eles não estão convencidos de que o comercial MTV vá ajudar muito no sucesso da música.

            Perguntas surgem impetuosamente: Eles deveriam fazer algum anúncio para a turnê -começando com alguns shows gratuitos […]- para os seus fãs através do seu website ou através da imprensa? Eles aprovaram as novas fotos de divulgação? Depois, a agenda para a próxima semana: pegar um avião para Nova Iorque para algums entrevistas rápidas nos intervalos de uma gravação que durará dois dias para um grande (e ultra-secreto no momento) anúncio publicitário, em relação a qual os quatro membros já estão ansiosos e céticos e inesperadamente confusos.

            “Mas como aquela coisa da Apple funciona?”, Champion pergunta. “Nós apenas cantamos a música [‘Viva La Vida’], então várias cores surgem, como numa animação”, Martin responde. “Não é uma propaganda pra Apple; é pra gente, pra nossa canção. É só ela tocando, a gente dançando e a palavra ‘Apple’ ou ‘iTunes’ ou coisa que o valha, aparece no final”. “Como é essa animação?” -é a vez de Berryman. “É bem intrincado, mas é simples”, Martin diz, pouco ajudando.

            Finalmente, a reunião está terminada e Martin se prepara para voltar para casa, para seus dois filhos (ele estima que o tempo para ir de um lugar a outro, de bicicleta seja em torno dos 33 segundos). “Hora do banho da Apple e do Moses. Ah, sim, e vou lavar minhas partes posteriores”.

            Os outros integrantes entram em um táxi para ir a um estúdio, onde filmarão performances a serem apresentadas ao longo dos shows. Inicialmente, um silêncio incômodo, finalmente quebrado com a continuação da reunião recém adiada. “Só tem 24 horas num dia”, diz Buckland, “de quanto mais alarde a gente precisa?” Ninguém se manifesta e ele acrescenta, calma, mas incisivamente: “Vou fazer tudo. Nesse momento. Mas, na turnê, não. É isso. Não vou fazer mais nada”. Berryman aguarda alguns instantes respeitosamente. Gentil, até mesmo reconfortante, ele diz ao guitarrista: “Bom, isso não é verdade”.

 

            Repassando o vídeo de “Violet Hill”, Martin declara que algumas cenas (uma retratando ele mesmo mirando o horizonte, outra com a banda toda, caminhando, cheia de si, em slow motion) são “pretensiosas” demais. Ele faz uso contínuo da palavra enquanto critica a imagem da banda. Ainda assim, esse é o mesmo cara que, durante um café da manhã vegetariano em um pequeno café de seu bairro, fala do criativo título de nove palavras do álbum, o qual é bilíngüe e só pode ser impresso em sua totalidade, de acordo com as especificações da banda, com quebras de linha apropriadas:

            Viva La Vida

            or

            Death and All His Friends

            “Sei que parece pretensioso, mas não dou a mínima. Esse é simplesmente o título. Você chamar de Viva La Vida: direto, fácil. Você pode chamar de Death and All His Friends. Ou você pode falar ‘o álbum do Coldplay’ ou, então, ‘essa porcaria aí’.

            Viva La Vida é o nome de um quadro de Frida Kahlo que Martin descobriu no museu dedicado à pintora, no México, no ano passado. “O que eu realmente amo em relação a esse quadro e em relação à ela, de modo geral, é que suas cores são sempre tão resplandecentes e vibrantes e vívidas, mas, olhando de perto, ela de fato se dava conta de toda a escuridão”. Martin (cuja mãe é uma cristã devota e em cuja infância a igreja foi figura constante, preocupada com céu e inferno) não pode se desvencilhar do dualismo: “tudo são felicidade e tristeza e e escuridão e luz. As duas coisas coexistem. Sou um cara feliz, mas também sou um cara muito triste. Isso está em todo lugar” (Essa é provavelmente a deixa para constatar que Woody Allen é seu herói). Ele faz alusões à vida cruel que Frida teve -“E, um dia, ela pintou um cesto de frutas e escreveu ‘Viva La Vida’ nela. Pensei ‘Incrível’- e fica com o olhar de quem acabou de apanhar um floco de neve com a língua.

            A tênue inocência de Martin, quando ele está despreocupado, é seguida por sagacidade arguta e direta. Questionado sobre sua reação diante de pessoas que definem seu ativismo em nome do Make Trade Fair [Comércio Com Justiça] como um complexo de pop-star-querendo-bancar-Deus, ele ironiza: “Eu diria a eles para… […] Acho que toda essa história de complexo é uma desculpa para as pessoas se sentirem confortáveis com sua própria inércia. Geralmente são as pessoas que não fazem nada que criticam. Nunca disse ‘Quero salvar a África, cara’. Estamos falando de algo que realmente pesquisamos”. Ele não diz nada a respeito, mas é interessante frisar que seu interesse em países pobres é creditado à sua história pessoal: Sua mãe cresceu no Zimbábue, sua avó mora nas proximidades da residêcia do presidente do país, Robert Mugabe e um de seus primeiros empregos temporários foi em um estúdio em Harare.

            O cantor, o qual divide seu tempo entre Londres e Nova Iorque, raramente menciona sua vida pessoal. Muito embora sua esposa esteja no elenco de um dos filmes que promete ser um dos maiores sucessos da temporada, Homem de Ferro, tal fato não é tópico da conversa. Quando o acercamos o fato de que ele faz parte de um dos casais mais glamurosos do mundo, Martin subitamente deixa o equilíbrio de lado e assume uma posição de cautela e apreensão.

            Para celebridades dessa magnitude, isso não é comum. A maioria teme o laço emocional destrutivo que guia a ideologia de muitos famosos e, segundo a qual, estrelas e fãs aceitam acreditar que aqueles são naturalmente superiores a estes. Não obstante, Martin fica irritado quando nossa conversa chega a um beco sem saída de que não se pode escapar a não ser que ele diga como o sucesso afetou sua vida pessoal. […] [Ainda assim,] fica claro que Martin não evita falar de sua vida enquanto ceolebridade por pensar que é especial, mas porque ele sabe que não é.

            [A seguir, ele completa:] “Os políticos devem estar tão contentes com o quão desajustada a nossa sociedade é, permeada por essas pessoas excessivamente famosas, porque eles podem se safar de qualquer coisa. Literalmente. Qualquer coisa. Porque todo mundo está acompanhando febrilmente uma garota de 26 anos e ficando obcecado com sua vida, ao invés de atentar para aquilo que está acontecendo no mundo”. Todos já ouvimos estrelas falando esse tipo de coisa, quando muito soando trivial ou insincero. O tom de Martin é inesperadamente desconcertante: leve, fidedigno, bravio, franco.

            Acabamos o café e nos encaminhamos para a Bakery, apanhamos os outros membros e vamos ao estúdio onde eles vão filmar mais material para o show. No caminho, passamos pelo espaço […] que Berryman e Champion dividiram quando a banda havia acabado de ser formada. Na sua porta azul, com uma aldrava em formato de cabeça de leão, algumas peças estão faltando, situação semelhante há dez anos. Eles chamam a atenção para uma janela que foi recentemente adicionada e mencionam um assassinato que teve como plano de fundo um pub próximo e riem do chuveiro de pouco mais de um metro de altura -instalado pelo faz-tudo de pouco mais um metro de altura. De aluguel, eles pagavam 100 libras por semana; Martin e Buckland viviam a alguns quilômetros do lugar, em um apartamento que custava a metade.

            Mas tarde, quando as tarefas do dia são finalizadas, Buckland me leva até o pub onde, antes do segundo show da banda, eles decidiram que se chamariam Coldplay (Uma alusão ao livro de poesia Child’s Reflections, Cold Play, o nome foi dado por outra banda que o rejeitou). Em seu primeiro show, eles foram Starfish, mas “graças a Deus, havia muitas outras bandas chamadas Starfish”, ele brinca.

            Desarrumado, de rosto redondo e pensativo de um jeito desafiante [?] (na última turnê, Buckland, após ler Os Irmãos Karamazov, disse: “Pensei que me converteria ao cristianismo ortodoxo”), ele pede a primeira das duas Guinness e conta a estória de quando ele e Martin se conheceram durante os primeiros dias de universidade. Buckland estava em seu dormitório, com a porta aberta e Martin, “como um tufão, entrou tempestuosamente, dizendo algo como ‘Então você toca guitarra’ e saiu correndo”. Logo no dia seguinte, eles decidiram tocar juntos; Buckland, a princípio tirando sarro de si mesmo quando jovem, diz: “Lembro de dizer a um colega ‘Conheci um ótimo cantor -vamos formar uma banda, vai ser ótimo’ bem depois do primeira reunião. Antes de nos darmos bem como pessoas, nos entendemos através da música. Foi realmente como um primeiro encontro, conversando em meio ao som de guitarras; como se alguma coisa dentro de você te dissesse o que a outra pessoa vai fazer […]”.

            O episódio é um dos muitos lances de sorte que uniu os músicos e eu me pergunto se seus atributos […] são advindos de sua criação estável (o que é pouco comum). Os pais dos quatro ainda são casados e, ao menos, ou o pai ou mãe de cada é ou já foi, professor. Buckland, assim como Martin e Champion, ainda vive a uma curta distância do local que um dia morou, quando era um universitário (Berryman se desloca da bucólica Cotswolds, a oeste de Londres). Contudo, não há nada de errado com sua estabilidade. Paternidade, Champion constata mais tarde, significa que “Você tem que aprender a se dobrar [?]” […].

            Mas eles nunca sentem uma vontade incontrolável de esfriar a cabeça, de aliviar toda a fúria típicas das estrelas do rock? “É claro, mas […] você tem de canalizar toda essa energia para alguma coisa mais útil. Existe esse estereótipo glamurizado de desenvolvimento musical interrompido, particularmente em função de Kurt Cobain, Jim Morrison e todos os ídolos que perderam sua grandeza. Há uma voz dentro de você e da cultura musical que diz que a sua vida não deve seguir em frente de forma alguma. No entanto, se você pensar nos grandes artistas, como Dylan, isso não é verdade. O velho mito do rock star, que tem uns quarenta anos e é, basicamente, nonsense, não tem nada a ver com ser um rock star. Todo mundo se prejudica e sai quebrando tudo. De acordo com esse padrão, encanadores e engenheiros são tão rock’n’roll quanto as estrelas do rock. Rock’n’roll é seguir os seus próprios preceitos; tem tudo a ver com liberdade. E nós realmente temos sorte porque, de um certo, nós temos essa liberdade”.

            E o Coldplay a está usando para planejar seu futuro -o que inclui sua obsolescência. Phil Harvey, afirma que, durante a gravação de Viva La Vida, o grupo ficou perigosamente perto do esgotamento, além de insinuar que a banda já traçou o fim de sua carreira -nenhum deles acha a perspectiva de tocar “Yellow” pelos próximos trinta anos muito atraente.

            Por ora, no entanto, parece que ainda há infinitas decisões a serem feitas. De volta à Bakery, Martin um milkshake macrobiótico da geladeira e diz: “Fico pensando nesse negócio da Apple”, se referindo ao comercial que eles vão filmar em Nova Iorque, e ele está agitado. É assustadoramente fácil, nesse momento, esquecer que estamos falando de um acordo de milhões de dólares com o Godzilla da indústria musical, considerando suas campanhas com U2 e Bob Dylan. O modo como Chris Martin fala desse “negócio da Apple” soa mais como se eles estivesse discutindo uma questão que preocupa qualquer um que quer ser uma pessoa séria e uma grande sucesso: Como você pode ser um cara legal e o chefão, ao mesmo tempo?

            “Esse tipo de coisa é o que todo mundo faz agora. Não é nada pra se preocupar. É assim que as coisas funcionam. Não é?”, ele se pergunta, enquanto o sol se põe, lá fora.

            A ansiedade habitual contribui para a insônia crônica de Martin. “Quando as coisas estão boas, eu fico agitado demais para dormir. Quando as coisas estão ruins, eu fico chateado demais para dormir. Os únicos dias em que consigo dormir são os calmos, mas eu tento fazer com que os dias não sejam assim”, ele explica. Mudando de assunto, ele faz perguntas sobre a minha vida amorosa, imaginando quanto anos durou minha relação mais duradoura (“Mas dois anos é quase dez anos para os gays, né?”, ele diz) e, enfim, nós terminamos discutindo sobre orgasmo feminino e se ele ainda ocorre após a menopausa. Em algum lugar, eu havia ouvido que não ao que Martin, teatralmente chateado, corre ao andar de baixo e pergunta aos técnicos se isso está correto. Ninguém tem certeza. “Procura no google”, ele diz para um rapaz da equipe. “Não quero fazer isso”, ele responde, embaraçado.

            É novamente hora do banho para as crianças, então Martin vai para casa e eu vou jantar com amigos. Mais ou menos uma hora depois, recebo uma mensagem no celular, de Martin. Ele tem novidades -mulheres têm orgasmos após a menopausa- e eu rio, entendendo quem provavelmente repondeu à pergunta para ele e esperando que hoje à noite, com uma coisa a menos para se preocupar, ele descanse um pouco.

 

Artigo da revista estadunidense Spin, com agradecimentos a Mimixxx.

Scans:

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  1. CriS_SantoS
    9 Julho, 2008 às 1:20 am

    Valeeeeeeu Su!! Sempre a melhor xD

  2. bruno
    9 Julho, 2008 às 11:29 am

    Ainda não descartei totalmente a possibilidade de serem traficantes disfarçados.

  3. 4 Agosto, 2008 às 10:27 pm

    “mulheres têm orgasmos após a menopausa” hauhauhauhauhuah!
    Essa reportagem é mesmo séria?
    Que preocupação…

  4. Erika
    25 Fevereiro, 2009 às 11:57 pm

    Acabei de ler! Só posso dizer que esses caras são fantásticos! O Christopher é muito complexo: não sei até que ponto ele diz as coisas que realmente pensa ou só faz isso por tipo ou senso de humor… Eu queria ser uma mosquinha londrina para acompanhá-lo no dia-a-dia, sem importuná-lo.

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