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Long live the king [Parte 1/2]

COLDPLAY
Long Live The Kings

Todas as atenções do mundo estão voltadas para eles. O público os espera. Faz três anos desde a última vez que os gentis senhores dos palcos estiveram entre as multidões. Porém, à medida que os primeiros ventos de inverno começam a soprar, seu vasto império começa a agitar-se, na preparação frenética de sua emergência, ao som dos primeiros sons assertivos que emanaram de seu exílio criativo auto-imposto.

Finalmente dando mais um passo na direção de seu devido lugar -à cabeceira da távola redonda do rock- os monarcas da música estão prontos para reinar, com base em um regime totalmente revisado. Saudações às novas sonoridades. Saudações ao Coldplay.

As expectativas para “Viva La Vida”, o quarto álbum da super banda britânica que vendeu zilhões de discos, são elevadas em proporções absurdamente palpáveis. Sessões musicais secretas, acordos confidenciais, táticas para evitar o vazamento virtual de informações, CDs clandestinos creditados a artistas fictícios, tudo contribuiu para aumentar a ansiedade da longa espera de seu lançamento.

Resguardados em seu novo estúdio no norte de Londres, Chris Martin, Guy Berryman, Will Champion e Jonny Buckland uniram-se ao conceituado produtor Brian Eno e começaram a trabalhar em sua composição mais obscura, porém a mais ambiciosa de todos os tempos. Tendo se desiludido com seus trabalhos precedentes, as intenções do quarteto residem em ampliar seus horizontes, adicionando novas tonalidades à sua palheta e construindo dimensões sonoras vívidas e majestosas.

O resultado? Uma peripécia audaciosa de complexidade e ritmos que encontram sua direção em territórios evocativos e experimentais que o Coldplay jamais havia desbravado. Temáticas funestas permeiam o caminho, enquanto a voz de Martin soa mais pungente do que nunca; foram-se os hinos, em favor de sussurros intimistas e aspirações contundentes. O título completo, “Viva La Vida Or Death And All His Friends”, deixa entrever a densidade que caracteriza o álbum: as grandes celebrações de vida e a solidão infinita da morte,

No ínterim, a Clash conversa com metade do Coldplay, numa tentativa de expor a verdadeira história por trás da composição que definirá a sua carreira.

Primeiramente, o baixista escocês GUY BERRYMAN

Qual é a sensação de estar prestes a lançar um álbum por que literalmente o mundo todo está esperando?
GUY: São sensações que confundem. É obviamente muito empolgante, mas obviamente aterrador, ao mesmo tempo. Estamos apenas esperando. Nos esforçamos bastante nessa gravação e estamos torcendo para que a recepção realmente seja como esperamos. É uma situação realmente estranha porque finalizamos o álbum, ele foi remixado e masterizado e, nesse exato momento, está sendo fabricado em algum lugar. Então não dá mais para ficar arrancando os cabelos; está feito e você tem de deixá-lo correr e aguardar até que chegue às lojas.

A avaliação mundial é intimidante até que ponto? Chega a ser aviltante?
GUY: É um pouco, suponho. Mas o fato é que estamos bem confiantes em relação a isso. Algumas questões foram suscitadas com o último álbum tão logo ele foi lançado. Percebemos que havíamos cometido vários erros assim que ocorreu o lançamento, mas acho que os reparamos dessa vez e fizemos um álbum bastante breve. Creio que, de modo geral, há um pouco de apreensão, mas, paralelamente, também estamos bem seguros porque realmente nos esforçamos muito.

Sucesso descomunal limita o experimentalismo de cada álbum ou reforça a sua confiança?
GUY: A única pressão a que nos submetemos foi musical e artística… Não ficamos pensando “inúmeras pessoas compraram nosso último disco; destarte, temos de fazer outro que soe igualmente”. A todo momento, o álbum foi guiado por uma perspectiva artística e tentamos não ficar pensando muito no mundo exterior enquanto o estávamos desenvolvendo. É somente quando você termina o trabalho que você realmente se dá conta de que as pessoas vão ouvi-lo. É meio frustrante porque você pode ter umas vinte pessoas fazendo elogios, mas uma só pessoa fazendo um comentário negativo é o necessário para te deixar mal pelo resto do dia. É muito injusto.

Dizia-se que os três primeiros álbuns formavam uma trilogia e que sempre houve a intenção de que, a partir daí, seria tomado um outro rumo. O que conectou os três primeiros álbuns? Temática, sonoridade, algum outro elemento?
GUY: Gravamos esses álbuns com as mesmas pessoas. É estranho; são coisinhas pequenas. Todos esses trabalhos têm a mesma fonte, o mesmo estilo, o mesmo rótulo do Coldplay. Requer muita coisa e, ao mesmo tempo, nada para caminhar em uma direção diversa desses três álbuns. Acho que só precisávamos trabalhar com pessoas diferentes e experimentar coisas diferentes, do contrário, correríamos o sério risco de parodiar a nós mesmos. Várias músicas que gravamos foram trabalhadas de um modo que soavam parecidas demais com o “Coldplay” e foi muito importante para nós que fizéssemos algo diferente sempre que possível, o que provavelmente signifcou que tínhamos de gravar com pessoas diferentes, utilizar instrumentos diferentes ou mesmo modificar o modo como gravávamos. Passamos um bom tempo tocando os instrumentos um do outro, o que foi bem estimulante. E, obviamente, trabalhar com Brian Eno também o foi, porque ele introduziu diversas idéias novas. Ele fez com que todos sentíssemos que, se alguém tiver uma idéia, é muito importante expô-la e pô-la em prática; uma espécie de princípio geral mesmo.

Dá realmente para ouvir no álbum os sons que caracterizam Brian…
GUY: Posso te dizer que a parte mais pitoresca do álbum é que todos as sonoridades que você acharia serem de Brian absolutamente não são. Todos os sons de sintetizador e coisas do tipo foram feitas quase completamente sem ele. Mas é engraçado quando você pensa “Estou trabalhando com Brian Eno”; isso te impele a copiar ou a fazer o que você acha que ele faria. Mas ele realmente trouxe novos elementos. Em “Cemeteries Of London”, ao invés de utilizar percussão tradicional, ele sugeriu que usássemos as palmas do flamenco para criar o ritmo. Com efeito, para fazer justiça, ele criou uma variedade de sons e temas que geralmente não seriam associados aos trabalhos anteriores dele.

Com tantas dimensões sonoras, seria o álbum um prenúncio do retorno do rock progressivo?
GUY: (risos) Há algumas músicas no álbum que não seguem a estrutura convencional verso-verso-refrão-verso. Há uma música intitulada “42”. Vínhamos tentando compor algo semelhante por muito tempo, o que nunca havia dado certo até hoje, quando, ao invés da estrutura tradicional, temos basicamente quatro partes diferentes: A, B, C, D. Obviamente, não ficamos todos obcecados com rock progressivo e propusemos fazer um disco assim, mas há músicas ao lado das quais nós quatro crescemos e que amamos, como “Bohemian Rhapsody” e algumas de “Abbey Road”, dos Beatles. De modo geral, elas fogem da configuração comum, ao contrário de todas as outras músicas que compomos até hoje. Assim, resolvemos nos desviar desse padrão.

Todos os integrantes do Coldplay foram universitários [Guy estudou Engenharia; Will, Antropologia; Chris, História Antiga e Jonny, Matemática e Astronomia]. Essas raízes acadêmicas fazem com que vocês vejam a música de um modo diferente do que um estudante de artes de pensamento livre, por exemplo?
GUY: Não sei; é uma pergunta interessante. Naturalmente, fazemos o que fazemos. Acho que seria difícil encontrar qualquer relação entre minhas influências musicais e o que fazia na universidade, mas tudo é responsável pelo pessoa que você, então é possível. Eu diria que as pessoas que vão para a Escola de Arte tendem a ser menos conservadoras. Penso que, como havia mencionado, as músicas dos três primeiros CDs não são tão inesperadas quanto as do último e tentamos alcançar novos rumos, mas sem perder a noção de música e melodia, elementos que sempre consideramos muito importantes para um disco. Ao mesmo tempo que tentamos fazer algo diverso, não creio que tenhamos nos desviado.

Vocês podem ser um alvo fácil para os críticos e, no passado, resistiram a algumas contraposições. Como vocês lidam com isso?
GUY: Não muito bem, às vezes, para ser honesto. Por vezes, quando estou lendo alguma crítica negativa, eu tenho uma sensação intensa que formaram um conceito sem bases; ou são apenas pessoas que odeiam o Coldplay ou… Acho que muitos jornalistas terão decidido escrever rejeitando o álbum sem ao menos terem o escutado; querem formar uma opinião mesmo antes de uma análise justa. Me incomoda o fato de algumas pessoas basearem seu julgamento em dados não factuais. Espero que esse álbum possa impressionar as pessoas de um modo que as faça pensar diferentemente.

Você acha que vocês ficam mais cínicos à medida em que lançam mais álbuns?
GUY: Provavelmente, mas você tem de manter os pés no chão, senão corre o risco de pensar que apenas os elogios contam, e requer-se apenas uma pessoa fazendo um comentário negativo para pôr tudo a perder. O que é mais difícil com que lidar, acredito eu, é entender que você não pode agradar a todos, a toda hora. Somos todos meio paranóicos e irrita um pouco reconhecer que não se pode fazer com que todo mundo goste de você, não importa o quanto você tente. Você só tem de lembrar que há pessoas nesse mundo que detestam os Beatles!

A nova música “Lost!” discute o sucesso e o fracasso. Considerando o verso “I’m just waiting til the shine wears off”: a posição de vocês ainda os surpreende? Vocês ficam repassando tudo o que já ocorreu de bom, no caso de tudo ter um fim amanhã?
GUY: Nós quatro temos vidas maravilhosas agora e, de quando em quando, você tem dificuldade em se dar conta do quão sortudo você é por poder fazer o que faz. É a natureza humana; é muito fácil achar que tudo está garantido. Fazemos muitas viagens, vamos para o trabalho ao meio-dia sempre, não temos de usar terno e gravata… Meu Deus, não me imagino tendo de fazer outra coisa! (risos) Em parte, é isso que nos motiva, porque, se tudo isso acabar amanhã, estamos na m****! (laughs)

Você acha que ter filhos mudou a sua visão de mundo ou, talvez, a sua música?
GUY: Com certeza. Somos todos pais agora, o que certamente mudou nosso estilo de vida -estou falando a partir de meu próprio ponto de vista. Você não pode ficar fora até tarde da noite porque você sabe que as crianças vão acordar e vão precisar de você às seis horas da manhã. Isso te força a ser mais responsável, mas também é muito gratificante. Minha pequena está começando a falar e a formar suas próprias sentenças e é a coisa mais incrível do mundo ver o desenvolvimento da linguagem de uma pequena pessoa. Minha filhinha, Nico, é realmente uma abelhinha. Dia desses, ela veio falar comigo: “Papai, papai, papai. Biscoito. Chocolate. Doces. Pirulito. Quero”. (risos) E eu fiquei me perguntando de onde, meu Deus, isso vem?” São absolutamente magníficas, as crianças; são as melhores coisas do mundo, quero dizer, antes de completar um ano, elas dão um trabalhão, porque, naturalmente, são dependentes e você não tem muitas respostas, no que diz respeito a amor e afeição. Porém quando elas passam dessa faixa etária, começam a sair correndo por aí e falando. Deus! É a melhor coisa do mundo!

Você fez trinta anos recentemente. Você fez alguma alteração consciente na sua vida, que, anteriormente, nunca teria feito?
GUY: Tentei parar de fumar, mas não deu certo. Parei em Nova Iorque, por algumas semanas, mas, depois, pensei “****-se! Eu adoro fumar!” (risos) Sou muito cabeça-dura, para falar a verdade, e acho muito difícil abandonar alguns hábitos. Creio que ter filhos provoca muitas mudanças, mas no seu subconsciente. Tenho muita dificuldade em mudar conscientemente; coisas como não sair ou não fumar ou praticar mais exercícios podem ser bem trabalhosas.

Como as novas músicas vão se enquadrar nos shows?
GUY: Pessoalmente, temos de fazer das performances ao vivo algo interessante para nós. Estamos ensaiando por algum e há algumas músicas que simplesmente não se encaixam mais. Estamos tentando fazer algo inovador. Estamos tentando tocar algumas canções de um jeito diferente do que costumávamos. Temos esse grande desafio de recriar algumas composições para o show, o que está se revelando bem desafiador, já que algumas delas, no sentido que não é meramente bateria e guitarra e baixo e vocal; algumas delas têm um arranjo pouco usual. Essa é a próxima montanha a ser escalada, desenvolver os shows da melhor forma que pudermos. Gostamos quando o público sempre vindo aos shows e nunca ficando entediado em momento algum. Então é uma tarefa de que realmente gostamos, é um desafio que nos apraz porque é muito fácil gravar um disco e sair por aí fazendo um showzinho qualquer. Tentamos ir até o limite e fazer com que seja o mais especial possível.

Revista CLASH
#28 (jul/ago)
PODCAST
Agradecimentos: David Watts e busybeeburns
Scans: Coldplaying.com

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