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Long live the king [Parte 2/2]

Seguindo o bate-papo com Guy, Chris responde as perguntas da revista Clash:

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Em seqüência, o gracioso vocalista e ativista incansável, CHRIS MARTIN. Geralmente um paradigma de auto-confiança, no dia em que a Clash conversa com ele, Chris está atipicamente desalentado e precisando de um pouco de afirmação…

O mundo inteiro está na espera pelo álbum. Qual é a sensação de estar no centro das atenções?
CHRIS: Qual a sensação? Vou ser honesto com você, cara, é completamente aterrador e eu gostaria de me esconder em um buraco por alguns meses. Esse não é o tipo de resposta que eu devia dar, mas você me pegou numa manhã em que eu estou tipo “Dane-se, não agüento mais!” (risos). Nenhuma série de músicas pode resistir à tamanha pressão. Para cada pessoa que diz que ama [nossa música], há outra que odeia. Sinto como se estivesse em um turbilhão permanente e mal posso esperar para o álbum ser lançado, de modo que aquele adolescente de quinze anos possa finalmente avaliá-lo.

Sucesso descomunal limita o experimentalismo de cada álbum ou reforça a sua confiança?
CHRIS: Vamos ver. A questão é que, quando você tem muito sucesso, há uma grande proporção de pessoas que não querem que você mude e uma proporção ainda maior de pessoas que realmente quer que você mude. Acho que, no último álbum, nos sentimos pressionados a não fazer mudanças, então não as exploramos tanto assim. Dessa forma, adquirimos nosso próprio espaço, chamado The Bakery [estúdio no norte londrino], aonde fomos com Brian [Eno] e Markus [Dravs, co-produtor] e sentimos liberdade. Definitivamente não usamos os velhos truques, o que, por sua própria natureza, é muito arriscado, penso eu.

Como essa liberdade influiu na música?
CHRIS: Pelo simples motivo de se poder ir até lá, pela manhã e não sentir pressão alguma, entende? Se você quiser passar três horas tocando uma flauta-de- pã, você pode. No final, você pode decidir: “Vamos usar isso; não vamos usar isso”. Por outro lado, não pode mais ir [ao estúdio] e perguntar “Qual é a balada com piano de hoje?”. Entende o que quero dizer?.

Há um verso em “Lovers In Japan” que diz “They’re turning my head out/To see what I’m all about”. É uma referência ao fato de você sempre ter de se justificar em entrevistas?
CHRIS: Pode ser. Nunca achei que valesse a pena usar nossas músicas como aulas de análise ou coisa do tipo; elas podem significar o que vocês quiserem. Não quero parecer uma prostituta de quinta categoria, mas pode me dar o nome que quiser.

Em “Viva La Vida”, você pergunta “Who would ever want to be king?” Isso soa como um clamor por compaixão, feito do pedastal em que você foi colocado. É difícil estar à altura das expectativas em torno de você?
CHRIS: Não, não. A música, na verdade, é sobre estar no topo do poder e estragar tudo. Dessa forma, ela é aplicável a um relacionamento ou mesmo a estar no lugar de Vladimir Putin. Mas, está certo, também serve para falar da posição em que a banda está, já que duas perspectivas podem ser assumidas: a do rei prestes a ser linchado e a do povo prestes a linchá-lo. Assim, é os dois lados da moeda.

Há uma quantidade considerável de versos obscuros nesse álbum, assim como ocorreu no passado -canções sobre morte e solidão. O que motivou essa temática?
CHRIS: Tenho 31 anos agora, estou ficando mais velho, então esse tipo de assunto tem a tendência de surgir. Não, acho que mais ou menos no ano passado, todos nós sofremos perdas e vivemos situações ruins; isso acontece com todo mundo, mas no final das contas, o que tentamos fazer é enfrentar de cabeça erguida e não em desespero. É definitivamente nossa intenção. Ignorar esse aspecto da vida seria pintar um quadro equivocadamente.

Há fantasmas e cemitérios vagando em torno do álbum. O que eles simbolizam para você?
CHRIS: Acredita-se que fantasmas sejam pessoas que não encontraram seu refúgio final, certo? E uma das imagens que estavam em minha cabeça era… Só pensamos que seria peculiar passar toda a sua vida tentando ir pro Céu e, quando você morre, chega aos portões só para dizerem que você não conseguiu. (risos) Isso sempre me perturbou, não estar na lista de convidados.

Você já teve experiências com um fantasma?
CHRIS: Boa pergunta. Tive uma no País de Gales. Estava dormindo em um hotel, quando acordei e havia esse tipo de… Não consigo explicar… Ar quente soprando na ponta da cama.

Tem certeza que não era o Jonny?
CHRIS: Não, não era o Jonny soltando um pum. No entanto, eu acredito totalmente nessas coisas.

Você acredita que haja essas pessoas desgarradas à nossa volta, o tempo todo?
CHRIS: Acredito, na verdade. Acho que sejam pessoas procurando por algo.

Muito dessa escuridão vai de encontro a uma série de referências à manhã ou ao despertar. O que a manhã simboliza? Nascer novamente, uma segunda chance?
CHRIS: Sim, claro. Mesmo na maioria dos filmes, assim que a manhã chega nos filmes de terror, é mais ou menos assim [exclamação de alívio], todos podem respirar mais tranqüilos: “Tá bom, podemos começar de novo”. Concordo plenamente com você.

O título do álbum, “Viva La Vida”, é um lema que vocês sempre adotaram ou que vocês estão tentando seguir?
CHRIS: É algo que sempre tentamos adotar, se me permite juntar as duas perguntas. A fonte é… Há um quadro da Frida Kahlo, um pintora mexicana, que teve uma vida extraordinária e fez esses quadros incrivelmente coloridos, mas, geralmente, com algum tema doido por trás; ainda assim, eles eram sempre apresentados vivazmente. Ele tem um quadro chamado
Viva La Vida. A sua casa é hoje um museu, aonde nós fomos ano passado e vimos essa pintura e eu fiquei “Temos de intitular nosso álbum com esse nome”. Porque, apesar de remeter a Ricky Martin, é a imagem que mostra acuradamente a direção que estamos tomando.

Vocês foram acusados de serem depressivos, de a sua música ser desalentadora. [O título “Viva La Vida”] seria uma declaração aberta do contrário?
CHRIS: É, talvez… Demos ao álbum um título e meio; a outra metade é “Death And All His Friends”. Foi uma espécie de… Não um gracejo, mas achamos que seria legal dar ao álbum dois títulos; assim, as pessoas poderiam escolher se elas acham que é depressivo ou edificante. Uma garota veio falar comigo dia desses e disse: “Eu gosto de ‘Yellow’, mas o resto me faz querer cortar os pulsos”. Respondi: “Não, você deve escutá-las depois de ter feito isso e se sentir melhor!”. Às, você não consegue se expressar direito, às vezes, não. Acho que essa alcunha é mais uma mensagem para nós do que para qualquer outra pessoa.

Na capa do álbum está “A Liberdade Guiando o Povo”, do Delacroix, celebrando a Revolução Francesa. Se esse disco pudesse induzir o público a tomar alguma atitude, qual você queria que fosse?
CHRIS: Essa é uma pergunta fantástica. Sempre acreditamos que o espírito do rock’n’roll não é usar calças justas e usar grandes quantidades de cocaína; é seguir o seu livre-pensamento. Creio que, especialmente agora, seja difícil impor-se sozinho e dizer o que se pensa. Assim, queria poder aplicar isso à minha própria vida; simplesmente orgulhar-se do que você pensa e estar sempre pronto para aprender e assim por diante; sempre esteja preparado para arriscar, sem medo de ser arrasado. Na minha própria vida, acho que é um desafio diário ter tal ação porque sabemos que vamos aquecer os ânimos. Engraçado, ontem estava lendo sobre Thomas Edison, esse grande inventor que viveu no século XIX ou XX. Achavam que ele era rídiculo, mas ele sempre seguia em frente e acreditava que ele poderia inventar uma lâmpada apropriada. Pessoas assim são realmente inspiradoras porque elas queriam muito algo e simplesmente correram atrás. Isso é o que eu gostaria de experimentar.

Vocês se juntaram à revolução tecnológica quando lançaram “Violet Hill” primeiro como download. Em algum momento foi considerado dar um passo a mais, seguindo o caminho do Radiohead?
CHRIS: Somos sempre, infelizmente, limitados pelo fato de que temos um contrato, então nós temos tanta liberdade assim, o que é meio bizarro, ao passo que o contrato de outras bandas já acabou e elas seguiram seu rumo por conta própria. Nós ainda temos que, de certa forma, fazer o que nos mandam. Desse modo, o máximo que pudermos… Há algumas faixas no álbum que são meio que secretas, então elas são basicamente grátis, mas o todo, de modo geral, não é exatamente nossa responsabilidade.

Bandas menores criticaram o Radiohead por acreditarem que a banda teria estabelecido um parâmetro a que poderiam corresponder somente os grupos que podem sobreviver sem vender álbuns. Como uma das únicas bandas que podem se equiparar ao Radiohead, vocês acham que disponibilizar as músicas gratuitamente é um mau exemplo?
CHRIS: Bom… Mm… É um dilema, não é? Em um mundo ideal, se você pode fazer isso, você deve. Muitos não podem fazer isso de graça, então os ouvintes têm quase a obrigação de… Não sei, há mais ou menos uma necessidade de fazer um pronunciamento quando se lança um disco: “Olha, vocês realmente precisam pagar por esse aqui” ou “Não precisamos que vocês gastem nesse aqui porque nosso último disco foi The Joshua Tree’“. Acho que isso deveria ser especificado a cada lançamento. O Radiohead está nessa posição de sorte, ao passo que The Ting Tings não. Assim, eu pessoalmente acredito que todos deveriam pagar pelo disco destes.

Considerando que os rumores da Internet sobre a indústria fonográfica continuam emergindo, você está preocupado com o estado da sua gravadora, a EMI?
CHRIS: Não. Acho que estamos vivendo um momento de transição na música; qual é a reação à ela, como é ouvida, como chega ao público. É como no início do século passado, quando os automóveis estavam surgindo, enquanto carros puxados por cavalos começavam a perder a espaço. Acho que estamos numa situação musicalmente correlata. Não finjo que sei quais são as respostas. Quero dizer, trabalhamos com pessoas da gravadora que realmente adoramos. Aconteça o que acontecer, sempre vamos precisar da ajuda de algumas pessoas, seja dentro de uma gravadora, seja fora. O que sabemos é que certamente há pessoas de que gostamos e precisamos muito.

Qual é a sensação de saber que a música de vocês tem uma grande amplitude, alcançando desde antigas até novas gerações?
CHRIS: Sério, cara, eu não acredito nisso. Na minha mente, eu sinto como se não tivéssemos feito nada ainda. Isso é o que me move: a sensação é de que nem ao menos começamos. Então, eu nunca penso nisso; é meio bobo, até, mas é de fato o modo como me sinto: “Cara, eu faço parte do Coldplay!”. Eu acordo de manhã e penso “Cara, você tem de fazer alguma coisa para conseguir um contrato!”. Ainda tenho essa mentalidade. Espero poder superá-la um dia, sossegado, mas isso não aconteceu ainda.

Vocês não vão tocar em nenhum festival nesse ano, mas você está planejando assistir a algum?
CHRIS: A única apresentação que eu não queria perder por nada era a do Jay-Z, no Glastombury. Mas estamos nos Estados Unidos, então não podemos ir de qualquer jeito, o que é muito frustrante.

Como você reage aos comentários sobre Jay-Z tocando no Glasto? Ele é seu amigo, não é?
CHRIS: Você está insinuando que sou tendencioso?

Er… estou.
CHRIS: Sou muito tendencioso. Porém, como ele é possivelmente o homem mais talentoso do mundo, não me preocupo. Acho que é uma das melhoras que alguém já teve.

Então você não concorda com o comentário de Noel Gallagher sobre Glasto ser apenas para guitarras?
CHRIS: Não, eu não (risos). Adoro o Noel, mas isso foi algo estúpido a se dizer.

Ao colocar o pé na estrada, vocês ingressam em um turbilhão de dois anos. Como você se prepara para a jornada?
CHRIS: Vamos esperar para ver. Se ninguém gostar do álbum, a turnê não vai ser longa, mas, se gostarem vamos deixá-la acontecer.

Acho que é mais provável a segunda hipótese se concretizar.
CHRIS: Bom, vamos ver, cara. Não me sinto muito seguro em relação a isso no momento, mas ontem sim. Talvez se nós continuássemos a conversa amanhã? (risos) Acho que nós dois temos de conversar sobre isso por mais ou menos um mês até termos o quadro completo. Não queremos um turnê demasiadamente longa porque alguns da banda começam a enlouquecer e isso não é fácil para se lidar.

Bom, você tem fama de ser um cara sóbrio e equilibrado…
CHRIS: Sim, mas eu sou viciado em pornô, então é uma compensação.

[…]

Aonde o Coldplay pode chegar e o que o Coldplay pode fazer que nunca tenha feito?
CHRIS: Aonde podemos chegar? Podemos tentar e ficarmos melhores.

Em um disco ou no palco?
CHRIS: Em um disco e no palco. No fim das contas, tentamos cumprir um serviço. Toda essa tentativa de parecer legal e tudo o mais à parte, o que de fato queremos é que as pessoas que compram nosso disco ou vêm aos nossos shows tenham uma boa experiência e sintam algo. Essa é uma das razões por que eu gosto das mudanças na indústria -tudo é um pouco mais direto. Se pudesse, eu simplesmente faria com que alguém que estivesse voltando da escola escutasse algumas canções, fazendo com que essa rotina seja menos aborrecida. O que podemos fazer nesse aspecto? Fazer algo para que viagens de ônibus sejam realmente emocionantes.

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