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Entrevista: Chris/Espanha

“Precisávamos romper com estereótipos”

Fonte: elmundo.es

 “Havíamos alcançado uma fase que pensamos: já que não podemos ser mais importantes, vamos ter de nos esforçar e melhorar”, explica Chris Martin.

“Eu também havia tomado a decisão de trabalhar a minha forma de cantar e ter aulas canto fazia anos. A professora me disse: “Olha, Chris, já estou enfadada com a sua maneira de cantar, você tem de mudar”. Eu, pessoalmente, não me sentia assim, mas é verdade que, de certo modo, ela tinha razão e eu tinha consciência disso. Assim, me esforcei ao máximo. Quando se é uma estrela do rock, sempre fica difícil reconhecer que você deve aprender algumas lições. Isso acontece com muito menos freqüência em outros campos artísticos ou nos esportes”.

Essa era a atitude de Martin (Devon, 1977) e o estado de espírito de seus companheiros de banda quando iniciaram a composição de seu quarto disco, o complexo e ambicioso Viva la vida or Death and All His Friends.

O álbum já vendeu seis milhões de cópias desde o seu lançamento em junho e agora, em setembro, o quarteto londrino se propõe a conquistar uma platéia maior na turnê européia que acaba de começar e que chega à Espanha com todos os ingressos vendidos há meses.

Chris compareceu à [nossa] entrevista irradiando uma alegria contagiosa. O pianista, guitarrista e cantor mostrou-se disposto a responder às perguntas que lhe fizeram sobre esperanças e ambições, tanto em relação a Viva La Vida, como a sua carreira em geral.

Quais foram suas principais influências na gravação de Viva La Vida?
Nos esforçamos ao máximo para tentarmos ser mais abertos, mais ousados e mais ecléticos. No caso deste álbum, muitas influências musicais nos serviram de inspiração. Escutamos desde Rammstein a Tinariwen, passando por My Bloody Valentine, George Gershwin e até Marvin Gaye. E Radiohead, que sempre representa para nós uma influência muito importante. Não queríamos impôr nenhum tipo de barreira musical. De certa forma, víamos o disco como nosso Sgt. Peppers ou Achtung Baby, do U2, no sentido de querer estabelecer um ponto de transição, uma nova direção em nossa carreira.

Vocês já declararam que, no passado, o ponto mais vulnerável do Coldplay era um perfeccionismo extremo. Vocês se preocuparam em adicionar um grau maior de expontaneidade em Viva La Vida?
Continuamos sendo perfeccionistas, mas fizemos o possível para nos curarmos! [Mas] cuidamos que o jardim florescesse à sua própria maneira, sem arrancarmos as ervas daninhas.

Sempre se torna complicado para um banda que alcançou tamanho sucesso (35 milhões de discos vendidos, aproximadamente) continuar tentando superar-se e crescer. Vocês sentiram necessidade de encontrar uma sonoridade diferente?
Precisávamos romper com estereótipos. Como banda, quando se alcança uma certa visibilidade, sempre se corre o risco de recorrer vez outra à mesma fórmula e acabar perdendo mesmo os fãs mais constantes. Aproveitamos bastante do nosso sucesso para nos cercar de muitas pessoas talentosas, de modo a podermos buscar novas fórmulas para inovarmos, experimentarmos e nos renovarmos artisticamente; queríamos explorar caminhos que não ousamos percorrer fazia cinco anos.

Nesse sentido, como Brian Eno e Markus Dravs, seus novos produtores, ajudaram nessas novas trajetórias?
Nos ajudaram a abandonar a zona de conforto e comodidade em que costumavámos penetrar para fazer as coisas. De certo modo, Brian e Markus empenharam-se em nos desconstruir e remontar novamente. O mais importante é que tiveram o bom senso de nos alertar (“Parem!”) em determinados momentos. Considere, por exemplo, a música Lost!. Tínhamos uma versão original na qual havíamos trabalhado durante nove meses. Pois bem, ao final, Brian nos disse: “Vamos usar a primeira versão”. Era a que havíamos gravado em 25 minutos! Mas tinha razão. Sem Brian e Markus, teríamos ficado no estúdio dando retoques aqui e ali, com nosso perfeccionismo. Se dependesse da gente, Viva La Vida teria chegado às lojas em 2071!

Vocês realmente acreditavam que o disco seria tão bem sucedido quanto os anteriores?
Sinceramente, não. Os dias que antecederam a data de lançamento nos foram muito penosas; até me tiraram o sono. Morria de impaciência. Queria passar de loja em loja perguntando o que as pessoas achavam, se estavam ou não comprando o CD, se estavam ou não baixando as músicas. Não me importava mais nada, só queria saber se as pessoas gostavam do álbum.

O título foi emprestado de um quadro de Frida Kahlo que vocês viram na casa da pintora, no ano passado. Qual o significado desse quadro para vocês?
Fiquei impressionado com os incríveis contrastes que podem ser observados nesse quadro e em outras obras dela. Há todas essas cores vivas se destacando e, ao mesmo tempo, é possível perceber que a pintora estava representando algo muito obscuro. Me senti intensamente atraído pela forma com que ela representava o mundo, com muita luz e escuridão, precisamente como sempre existirá felicidade e tristeza, convivendo uma ao lado da outra. Essa é a forma como eu me sinto comigo mesmo.

Assim como em suas visitas anteriores, o Coldplay trouxe consigo a Oxfam, a qual, antes dos shows, denunciou os acordos comerciais entre a União Européia e os países subdesenvolvidos.

Vamos falar de assuntos pouco agradáveis… Paralelamente às críticas elogiosas, são também publicadas opiniões negativas, como a do periódico The Independent. Vocês leram o artigo?
Não, mas conheço o autor dela. Ele reprovou cada um de nossos discos. Felizmente, não há nada que obrigue alguém a escutar as nossas músicas. Há uma grande quantidade de pessoas que as detestam e outras ainda que acreditam serem ela super valorizadas. Certamente, não estão de todo equivocados sobre esse último ponto. Considerados individualmente, não somos músicos excepcionais, mas, em grupo, cria-se uma química inexplicável que supera isso.

Você não tem papas na língua quando são abordados alguns temas políticos. No entanto, nunca compôs nada do tipo.
Tenho tendência a cantar sobre temas universais, que são sempre os mesmos: a solidão, os sentimentos de insegurança, o lugar do indivíduo na sociedade… Ainda assim, há algumas canções novas nesse último álbum, Como Violet Hill e a própria Viva La Vida, que, nesse sentido, marcam um guinada. Tenho a sensação de que, nelas, ousei dizer o que penso, não somente o que sinto. Para mim, representam um passo muito importante que me fez sentir uma sensação de grande liberdade. Pessoalmente, essas músicas têm, de alguma forma, uma intenção política e social, apesar de não haver nelas nenhuma declaração explícita. [Mas], naturalmente, cada um tem o direito de interpretá-las como bem entenderem.

Quando você está compondo, o que dá mais trabalho, a melodia ou os versos? 
Não se pode separá-los. O que mais gosto é quando letra e melodia surgem ao mesmo tempo. Quando tenho os versos de uma canção, mas não há uma melodia subjacente, fico travado, sinto como se estivesse num beco sem saída. Há ocasiões em que não tenho confiança suficiente no que escrevo. É aí que entra a melodia, uma ajuda para contornar a dura realidade de que não sou Shakespeare!

Uma das coisas mais difíceis para qualquer artista que, como você, tenha alcançado um grau de fama e reconhecimento internacional é manter controlado o próprio ego. Como você faz para não se ficar convencido, se não o é?
Ouço discos dos Beatles, Radiohead e do Jay-Z. Porém, se ainda assim não consigo baixar a bola, sempre tenho o The Independent à disposição!

*A entrevista é encerrada aqui. Foram suprimidas aqui as considerações acerca do show “modesto” que ocorrera em Barcelona, uma das apresentações gratuitas antes que a turnê de fato tivesse início. A matéria original foi publicada em no dia 6 de setembro, antes dos dois shows na Espanha. Créditos: Coldplay Chile.

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